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Passei 24 horas no Tinder, tive três matches e descobri que o jogo mudou

Angélica Morango

16/11/2017 04h00

A foto discretinha que escolhi para minha estreia no Tinder. Você daria um match? (Foto: Arquivo pessoal)

Entrei no Tinder por 24 horas. Estava em casa de bobeira no sábado à noite e abri um perfil lá. Não quis mentir, então usei uma foto recente, na praia, mas eu aparecia de longe, quase que só uma silhueta.

Nunca tinha baixado um aplicativo de paquera, apesar de ter sido uma das pioneiras nas salas de bate-papo do UOL e no Flogão numa época em que a internet ainda era discada, coisa de umas duas décadas atrás, quando as pessoas ainda tentavam se passar pela Angelina Jolie.

Então me preparei para ver inúmeras Jolies, Paollas Oliveiras e Demis Lovatos… E dei de cara com amigas de amigas! Foram umas quatro. E colegas de trabalho que eu podia jurar de pés juntos que eram héteros, mas que descobri bissexuais, e que junto com os namorados buscam parceiras para “bons momentos” a três. Ri de nervoso, como criança quando ouve um segredo.

Quando a internet era só mato

Acostumada aos perfis fakes do tempo em que a internet era só mato, não estava preparada para descobrir tanta gente real e disposta a expor o rosto e detalhes íntimos a completos desconhecidos. Boa parte até anexa o perfil do Instagram ao Tinder para facilitar o stalk. É claro que também existem os perfis falsos, as fotos de olho, de frases, de bichinhos, mas são minoria.

A intenção não era escrever sobre essa experiência. Baixei o aplicativo por curiosidade, pra jogar conversa fora, mas tomei tanto “tiro” que fiquei desnorteada. Um “tiro” é uma foto bonita, um perfil impactante. Na versão grátis e básica do aplicativo, que é a que usei, quando você se interessa por alguém, você dá um “like” e vocês só poderão conversar se o “like” for recíproco, que é o “match”. Consegui três “matches”. Todos de mulheres. As três, de 34 anos. Uma bi, casada, iogue; uma bi, solteira, jornalista, e uma lésbica, arquiteta, que deixou claro que estava ali para encontrar uma namorada e não quis trocar muitas palavras quando expus que não tinha essa intenção.

Por que o Tinder mostra as héteros pras gays?

Tirando as conversas que não deram em absolutamente nada, me impressionei com o trabalho de fotógrafas, tatuadoras e artistas plásticas e cênicas incríveis, e me diverti lendo o que as pessoas escrevem no campo de descrição. Como não se identificar com um: “Tô procurando mais alguém pra sair e meter o louco comigo do que pra beijar na boca”? Ou: “Sou igual feijão no micro-ondas, uma parte quente, outra fria, aceita”.

Pra fechar, uma garota de 24 anos publicou: “Primeiramente, não gosto de pessoas secas. Segundamente, por que o Tinder mostra as héteros pras gays?” essa última, uma pergunta que também me fiz. Por que o Tinder mostra as héteros pras gays? E por que mostra as gays pras gays? E por que é que o mundo tem que ter tanta gente linda, divertida e interessante, meu Deus do céu?!

Entrei no Tinder com o receio de encontrar um gélido cardápio de pessoas e tive a grata surpresa da constatação da mudança dos tempos. Naveguei num mar de gente real. Me encantei por corpos e rostos atraentes, e também pela criatividade, humor e até um pouco de indolência deles. Comecei essa experiência por um lampejo de curiosidade, e saio dela mexida, maravilhosamente desgraçada da cabeça.

Sobre a Autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o Blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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