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Machismo invertido não é feminismo

Angélica Morango

12/10/2017 04h00

Mulheres machistas. Lésbicas machistas. É triste assumir, mas elas existem.

O machismo acontece toda vez que uma mulher é subjugada, reprimida e depreciada, não importa se por homens ou por outras mulheres.

A minha cara caiu no chão de perplexidade na primeira vez em que, numa balada gay, apalparam a minha bunda. Só havia mulheres ao redor e eu me senti muito violada. A sensação é parecida com a de postar uma selfie e ler comentários do tipo "comeria", "vontade dessas carnes", "chupava inteira". É embaraçoso, humilhante, constrangedor. A sensação é a de ser reduzida a um objeto, um pedaço de qualquer coisa.

Dá pra demonstrar admiração sem desrespeitar. Não há nenhum problema em olhar, flertar ou elogiar. Mas existem limites. Separei 12 sinônimos para o adjetivo "bela": bonita, linda, formosa, deslumbrante, encantadora, graciosa, maravilhosa, deusa, atraente, perfeita, primorosa, uva. Uva. Eu ri porque essa é do tempo da minha avó, mas ainda pode ser usada. Também é preferível fazer uso dos termos pitéu, broto e gata que potranca, cavala e filé.

Felizmente a maioria das pessoas entende a diferença entre fazer um elogio e ofender, se aproximar e assediar, entretanto este é um tema que merece mais atenção do que normalmente recebe. Teoricamente aprende-se sobre o respeito em casa. Em tese esse valor é reforçado na escola. E a mídia, por sua capacidade de abrangência, deveria ampliar a conscientização sobre o assunto, não distorcê-lo. Eu explico: não adianta falar de empoderamento feminino e no instante seguinte incentivar mulheres a ter o mesmo comportamento reprovável de alguns homens.

É insano estar em 2017 e ver programas encorajando mulheres a repetir o machismo.

"Vinte homens vão ter apenas sessenta segundos pra conquistar cinco mulheres em cima da esteira do amor" diz o site de inscrição para o quadro "Rola ou Enrola" do Programa da Eliana, no SBT. Depois de avaliar cada candidato pelo físico, já que a maioria se apresenta seminu, elas levantam uma plaquinha com os dizeres "eu quero" ou "tô fora". Basicamente como se faz num rodízio na churrascaria dando sinal verde ou vermelho aos garçons.

Isso não é empoderamento. Isso não é entretenimento. Isso não é feminismo. Isso é machismo invertido. Assim como estão sendo machistas as mulheres que saem por aí afofando bumbuns ou rasgando as roupas de astros da música ou das novelas sob o pretexto de serem "fãs".

Não podemos minimizar ou relativizar machismo e o abuso considerando-os apenas diversão ou destempero. Devemos esperar e cobrar o respeito em todas as situações, seja onde e de quem for.

Machistas não passarão! Sejam eles homens ou mulheres.

(Foto: Getty Images)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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