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Eu, minha namorada e minha sogra lésbica

Angélica Morango

26/10/2017 04h00

Se a sua sogra fosse lésbica vocês se entenderiam melhor? Teriam mais assuntos em comum? Assistiriam a filmes e séries dividindo a pipoquinha?

Eu já tive duas sogras lésbicas, mas a minha vida enquanto nora não foi mais fácil por isso. Elas viveram casamentos heterossexuais, conceberam filhos, e, depois de um tempo, se descobriram homossexuais. Se descobrir é diferente de se aceitar, eu grifo.

Anos atrás, quando a minha namorada na época contou sobre a homossexualidade da mãe, ela desabou. Chorou muito, de soluçar, e até hoje nunca entendi o motivo. Curiosamente, a relação entre as duas sempre foi muito boa, entretanto não fui apresentada como namorada, mas como amiga.

Conheci minha sogra, que morava em outra cidade, e sua companheira de anos – elas não moravam juntas. Saímos, comemos pizza e conversamos amenidades. Nos encontramos mais umas duas vezes e só. O relacionamento com a minha namorada foi se desgastando e comecei a notar que, quando ela viajava pra passar um fim de semana com a mãe voltava muito diferente, mais fria, e isso passou a ser cada vez mais frequente até que terminamos. E rompemos com direito a todos clichês dramáticos sapatônicos a que "lésbicas raízes" têm direito. Foi um inferno.

Sogra evangélica & lésbica

Passei três anos solteira, tranquila e quase celibatária até que PLAU! Conviver com uma sogra lésbica definitivamente estava no meu destino.

– A minha mãe é lésbica.

– Ué, mas você não falou que a sua mãe é evangélica?

– Sim, ela é também. É uma longa história. A minha mãe era casada com o meu pai, conheceu uma mulher por quem se apaixonou, as duas viveram juntas por quase dez anos, terminaram, ela teve outras namoradas, enfim. Mas nesse momento ela não está se relacionando com ninguém, está na igreja.

Na hora pensei com meus botões: como uma pessoa pode ser lésbica e fazer parte de uma congregação que condena a homossexualidade? E a resposta é simples: não pode. Até existem comunidades evangélicas inclusivas, voltadas ao público LGBT e em geral, mas não era este o caso. Na igreja que ela frequenta ou se é lésbica ou evangélica. Então ela optou por ser uma lésbica "não-praticante", abdicando da vida ao lado de outra mulher, seguindo a orientação dos pastores.

Essa minha sogra me deu uma das maiores provas de carinho que alguém podia dar: encheu uma piscina de mil litros só pra mim. Amo piscina! Nunca esquecerei isso.Também dividimos a pipoquinha enquanto assistíamos juntas à primeira temporada de "American Horror Story". Adoro filmes e séries de terror! Jamais esquecerei também.

Assim como minha memória provavelmente não vai apagar as diversas vezes em que ela perguntou para a minha namorada, enquanto estávamos juntas, quando ela arrumaria um namorado e se casaria com um homem. E não foram poucas. No fim entendi que estabelecemos uma amizade que era frágil. Tão frágil quanto a aceitação da homossexualidade de sua filha e tão delicada quanto a admissão da sua própria.

Pais e mães podem ser sogros e sogras maravilhosos, independentemente de serem héteros ou gays. Só não são indefectíveis porque, afinal, ninguém é. E tudo bem.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!