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A regra é clara: só viado e sapatão pode se chamar de viado e sapatão

Angélica Morango

28/11/2017 04h00

 

Eu com meu amigão Reminho, o meu Bambi do coração (Foto: Arquivo pessoal)

A regra é clara: se você não é viado, nem sapatão, não pode chamar ninguém assim.

Sofri muito bullying na adolescência. "Machorra", "sapatona" e "44 bico largo" eram algumas das ofensas ora cochichadas, ora berradas no pátio da escola, no meio da rua, onde quer que alguns colegas da oitava série me encontrassem. Essa fase foi um inferno.

As provocações machucavam e eu não tinha coragem de falar sobre elas em casa por medo de suscitar a ideia lá. Como contar à minha avó do que me chamavam, se eu tentava esconder e renegar quem eu era de fato? Doía porque no fundo eu sentia mesmo atração por mulheres – apesar de tentar disfarçar pregando um pôster gigante do Ricky Martin no meu guarda-roupa. Do Ricky Martin, o-lha is-so!

A sapa virou princesa

O cabelão comprido que quase chegava até a cintura não me tornava feminina. Eu não fazia a sobrancelha, não usava brincos, pulseirinhas, nem maquiagem. Ia pra escola de macacão jeans e coturno. Na verdade, não tinha nada absurdo na minha aparência, mas era completamente diferente da maioria das outras meninas. E eu não me achava bonita, me sentia deslocada. Aos 17, muito antes do Big Brother Brasil, me inscrevi e fui sorteada num programa de TV que transformava o visual das telespectadoras. A sapa virou princesa. Começava ali minha revolução pessoal, com o resgate da minha autoestima.

Lá na turma da oitava série eu não estava sozinha. Também tinha o Remisson, Reminho para os íntimos. Outra vítima de bullying, que aos 14 anos se assumiu gay para a família e para o mundo. O pai dele, que morava em outra cidade, surtou. Arrastou o Reminho para um prostíbulo e disse que ele só sairia de lá quando virasse homem. No quarto com a mulher, ele só conseguiu chorar e implorar para que ela não fizesse nada.

Meu amigo desenvolveu distúrbios alimentares e tentou se matar diversas vezes até os 20 e poucos anos. Felizmente ele não conseguiu.

Apesar dos jovens LGBTs serem 5 vezes mais propensos a tentar o suicídio, sobrevivemos. Hoje somos trintões. No país que mata um LGBT a cada 25 horas, sobrevivemos. Ele é o Bambi da minha vida. Eu sou a Sapatão dele. Por fazer parte da história um do outro, temos o direito de brincar com isso.

Quem sabe a diferença entre um apelido carinhoso e uma ofensa, e entende o peso que isso tem, pode também, Arnaldo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

Blog da Morango