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Obrigada pela flor, mas eu queria mesmo é não ser cabra

Universa

08/03/2018 05h00

Não adianta enviar mensagens amistosas nos grupos de Whatsapp no dia 8 e fazer piadas sexistas no dia 9 (Getty Images)

Obrigada pela flor, mas eu queria mesmo é não ter pânico de andar sozinha à noite. Agradeço o bombom, mas bom seria se nossos esforços profissionais fossem reconhecidos e remunerados de maneira equivalente. Reconheço a singeleza do bilhete de felicitações pelo Dia Internacional da Mulher, mas gostaria que ele se estendesse às mulheres trans também.

Não adianta enviar mensagens amistosas nos grupos de Whatsapp no dia 8 e fazer piadas sexistas no dia 9 e em todos os outros do ano.

As declarações amorosas às mães, irmãs, esposas e filhas no Facebook só têm validade quando o carinho expresso no textão corresponde a atitudes efetivas de gentileza na vida real: ceder o assento no ônibus, repreender o colega que fizer comentários desrespeitosos sobre uma mulher, não assediar moral nem sexualmente uma. O caminho do respeito passa pela compreensão da alteridade.

O pinto não cai quando se lava uma louça. A voz não afina quando se passa uma vassoura na casa. Pode lavar. Pode varrer. Pode limpar o banheiro e trocar fralda de bebê, sem medo. E, se precisar de ajuda, peça. Se sentir vontade de chorar, chore. Todo mundo chora.

Quando pequena, ouvia meu pai falar em rodinhas de amigos: "Prendam suas cabras porque o meu bode está solto" e, depois, eles sorriam, cúmplices.

Na minha ingenuidade de criança, imaginava cabras amarradas em árvores, como se estivessem de castigo, e bodes brincando alegremente no pasto verdinho, tilintando o sino que costumam carregar no pescoço. Tempos depois entendi que eu era cabra.

Meu irmão, desde os três anos, era incentivado a ter "namoradinhas" e ganhava trocados para comprar balas, picolés e outros mimos para elas. Elas.
Uma na escola, uma vizinha, uma no clube. Com a mesma idade, eu ganhava bonecas e panelinhas dos meus pais. Aos meninos, liberdade. Às meninas, recato. Ser cabra não era pra mim.

Imagine querer fazer artes marciais por ser fã do Jaspion e ter a obrigação de frequentar aulas de balé. Aconteceu comigo. Cada plié era uma lágrima, entretanto, nunca desejei ser menino.

Durante a infância e a adolescência, achava os garotos extremamente competitivos entre si. Não entendia o porquê de tantas disputas para saber quem cuspia mais longe, arrotava mais alto e uma série de outras tosquices disparatadas.

Antropologicamente esses comportamentos têm explicação, mas a realidade contemporânea é bem diferente daquela vivida por nossos ancestrais. E, quando falo deles, refiro-me apenas ao Homo Sapiens, nossa espécie, essa que já habita a Terra há mais de 300 mil anos.

Não, meninos, vocês não têm de provar que são mais fortes, destemidos e violentos que os demais. Nós esperamos, sinceramente, é que sejam gentis, honestos e sensíveis consigo e com os outros. Evoluir não é mudar a natureza humana, mas se adaptar às novas nuances dela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!