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Quer ter um relacionamento aberto? Leia estas histórias antes

Universa

06/04/2018 04h00

Foto: Getty Images

Uma noite, durante um encontro regado a vinho, um casal de amigas, juntas há quatro anos, confidenciou que, de vez em quando, ficava com outras mulheres. Essa conversa foi há mais de três anos, mas lembro da minha perplexidade com a revelação. Na época, foi um choque, porque elas representavam o que eu considerava como ideal de relacionamento – e sempre fui ciumenta demais para pensar na possibilidade de ter um relacionamento aberto.

Tempos depois, descobri que outro casal próximo, dessa vez heterossexual, junto há mais de 18 anos, também tinha aberto a relação e começado a namorar uma mulher. A relação a três durou um ano.

O que as duas histórias têm em comum? Os dois casais seguem juntos, firmes, cúmplices e conceberam filhos. Mas, infelizmente, nem todos os outros casais de amigos meus que aderiram à prática tiveram finais felizes.

Vale a pena?

Rafael* e Thales* namoraram por dez anos e há pelo menos seis anos se envolviam sexualmente com outras pessoas.

"Sempre foi uma fantasia minha transar com duas pessoas. No início, o Thales não queria, mas depois aceitou a ideia. A vantagem são as sensações diferentes durante o sexo, como ser beijado, chupado e acariciado por duas pessoas ao mesmo tempo. No começo foi muito legal, até a relação a dois ficou mais apimentada. Durante todo o tempo sempre foram aventuras muito gostosas, experiências incríveis e tudo isso virava conteúdo para conversas. Mas a mudança mais drástica aconteceu quando ele encontrou na nova pessoa coisas que não sentia por mim e quis viver essa experiência sem se importar com o passado", desabafa Rafael.

"Vivemos juntos coisas que nunca conseguimos viver quando éramos solteiros. O ciúme, às vezes, atrapalhava e sempre corremos o risco de acabar gostando da outra pessoa. Acredito que conseguimos amadurecer, mas nosso relacionamento de dez anos acabou caindo em uma situação de mais amizade do que amor, e deixamos o sexo com outras pessoas nos cegar. Acabamos conhecendo outra pessoa que me fez ver que o nosso sentimento não existia mais e hoje não estamos mais juntos", conta Thales.

Sexóloga há quase 30 anos e com vasta experiência em atendimentos individuais e de casais, Carla Cecarello pondera sobre a decisão de abrir o relacionamento: "Relacionamento aberto é quando o casal permite que qualquer um deles possa ter um envolvimento sexual com outra pessoa. Isso deve ser conversado a partir do momento em que um dos dois tem esses pensamentos e essas vontades. Muitas vezes a pessoa já vem com isso quando inicia a relação, então o ideal é posicionar o outro, porque nem sempre a parceria com quem se escolhe pra ficar vai aceitar esse tipo de coisa".

Motivação e interesses em comum

Casados há seis meses, Flávio* e Nicolas* queriam novas experiências: "Eu nunca tinha pensado bem em relacionamento aberto, porque fechado já era complicado!.. Quando conheci meu atual marido, ele veio com essa ideia porque já tinha namorado muito tempo, um namoro fechado, e queria tentar essa nova experiência. Eu não concordei à primeira vista, mas a gente foi levando e discutindo sobre isso até o momento em que consegui falar: 'Acho que tá valendo relacionamento aberto agora!'", revela Flávio.

Abrir o jogo logo no início foi fundamental para a relação de Fernando* e Clara*, juntos há seis anos. "Nosso relacionamento começou a partir de uma traição, éramos casados com outras pessoas. Começou aberto, de uma forma que não era legal com os nossos parceiros, então a gente viu que a gente não era assim, não tínhamos aquela coisa monogâmica. A vantagem é que a gente leva uma vida muito mais leve, e a vontade de fazer (ficar com outras pessoas) é bem menor porque não tem o fator proibido da história. Você não precisa mentir, isso é libertador", declara Fernando.

Depois de nove anos juntos, Augusto* e seu marido decidiram abrir o relacionamento há um mês: "Vimos que nosso amor é muito grande, porém não sentíamos mais aquele tesão de início de namoro. Não transávamos mais. Notamos que nosso sentimento de querer bem e de cuidar um do outro vai muito além, então decidimos abrir o relacionamento para que possamos ter prazer. Temos certeza absoluta de que nos amamos."

Entrosamento, diálogo e regras

"É engano achar que quem parte para um relacionamento aberto faz isso porque não está bem; é o contrário. Casais que tomam essa decisão estão muito bem entrosados, caminham juntos no mesmo objetivo. Os riscos emocionais vão existir, como em qualquer outro relacionamento. De repente, um pode se encantar por outra pessoa que ache interessante, mas não necessariamente. Quanto mais entrosados, menor o risco de isso acontecer", avalia a sexóloga.

Se entrosamento e diálogo são essenciais nessa decisão, outro detalhe faz toda a diferença: o estabelecimento de regras. "As coisas precisam ser muito claras e acordadas para não trazer nenhum tipo de conflito como ciúme, querer saber de comparativos sobre como é que foi o sexo com a outra pessoa… Entrar nessas neuras só vai trazer problemas e o desfecho da relação. E se um dos dois se apaixonar por uma terceira pessoa, isso tem que ser comunicado. É um risco, pode acontecer", finaliza Carla Cecarello.

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados e seus cônjuges.

Carla Cecarello é psicóloga, sexóloga e palestrante – http://academiadasexualidade.com.br

 

 

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!