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Como cachorrinhos, queremos atenção. E biscoito

Universa

08/05/2018 12h18

Surgida nas redes sociais há pouco mais de um ano e popularizada pelo público LGBT, "biscoitagem" é uma expressão nova para um comportamento humano antiquíssimo, o de pedir e dar atenção.

Uma das teorias para a origem do termo "pedir biscoito" está relacionada ao comportamento dos cachorros, dispostos a fazer truques para entreter os donos em troca de biscoitos, petiscos. É o que explica o youtuber Rafa Tex em seu canal, em um vídeo que ele fez questão de gravar seminu. "Vim sem camiseta fazer esse vídeo, com essa carinha de sono, só pra estimular o pessoal a dizer que eu estou querendo biscoito…". E ele segue, fazendo uma revelação sobre o assunto: "As pessoas têm o costume de criticar bastante as outras que fazem selfies descamisadas, que tiram muitas fotos delas mesmas, acham isso egocêntrico… E eu era uma pessoa que odiava esse tipo de comportamento. Até que eu percebi que tirar fotos minhas era uma forma de trabalhar minha insegurança, minha autoestima".

Apesar de criada e popularizada no "Vale dos Homossexuais", a biscoitagem não é uma exclusividade dos "coloridos" só para dar um up na autoestima ou arrebatar um crush. Magras, maquiadas e sob ótima iluminação, muitas influencers populares têm legendado fotos destacando suas "imperfeições" e seus "corpos reais" com mensagens que exaltam a liberdade e o amor-próprio.

Pedindo biscoito?

Em roupa de academia e com gotas de suor escorrendo pela barriga chapada, Kéfera escreveu, em inglês, para seus 12 milhões de seguidores: "gotta love your fucking curves" (tem que amar suas malditas curvas, em tradução livre). Ao que foi prontamente rebatida por um internauta: "Fala tanto em aceitação do corpo, mas usa a magreza pra tirar o foco da polêmica em que se meteu… Hipocrisia".

Cantora e youtuber, Luisa Sonza "filosofou" numa foto em que exibia o novo look das madeixas em sua conta no Instagram. "Cortei mais! Mas isso vai muito além de um corte de cabelo. Eu me libertei, me desconstruí, me permiti experimentar, arriscar e aceitar o novo… A vida passa tão rápido… Experimente suas várias versões, não se prenda na mesmice. Se liberte, se 'desconstrua'." E também foi replicada por uma seguidora: "Torço por você nesse momento complicado, que você supere todos os obstáculos para o novo corte". O comentário afrontoso recebeu mais de 1.300 curtidas.

Outra youtuber, Dora Figueiredo, viralizou justamente pelas críticas que fez ao comportamento de algumas influencers – sem citar nomes. "Muito fácil ser natural quando você é privilegiada e cheia dos procedimentos." E continuou: "Vamos prestar atenção em quem realmente tá ajudando e quem só está usando o discurso pra ganhar dinheiro. O natural fake tá na moda, bebê! Muito fácil ser 'good vibes' #gratidão quando você é branca, 'ryca', magra, lisa".

Biscoito x empoderamento

A intenção por trás de cada publicação é o foco do debate. O que quer um homem que posta uma foto só de cueca revelando o abdome trincado e legenda algo sobre a superação de uma cicatriz imperceptível? Talvez o mesmo que uma mulher que tenha o corpo torneado e publique uma foto de biquíni com o texto "ame-se como você é". Biscoito? Empoderamento?

Famosos ou anônimos, uns vão assumir que são puramente biscoiteiros. Outros, justificar a necessidade de atenção com um pretenso discurso em defesa de alguma causa. Uma pessoa biscoiteira pode, mesmo que essa não tenha sido sua intenção original, despertar o interesse de outra(s) para algum assunto importante. Um digital influencer, imbuído por um espírito naturalmente good vibes ou financeiramente bem remunerado para isso, pode exercer um papel positivo – ou negativo – na vida de um ou de milhões de seguidores.

Esqueçamos as dicotomias. Entre o certo e o errado existem as nuances e, além delas, inúmeras possibilidades. Qual o crime em querer mostrar o corpo fazendo de conta que não quer? Por que condenar quem, para falar de alguma mudança no visual, escreve um texto com uma mensagem um pouco mais "profunda" que o convencional?

Em se tratando de redes sociais, ninguém é obrigado a seguir, curtir, concordar, muito menos reproduzir comportamentos alheios. Mas se quiser, pode. E c'est fini.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!