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Você sabe se relacionar, sem preconceito, com pessoas trans?

Angélica Morango

18/07/2018 04h00

Arthur e sua nova identidade. Em março deste ano os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram, por unanimidade,  que pessoas trangêneras e transexuais podem alterar seus nomes sem a necessidade de realizar cirurgia de redesignação sexual, autorização judicial ou laudo médico. Basta ir diretamente a um cartório e declarar seu novo nome. (Foto: Reprodução/Instagram)

"Está cada vez mais insuportável conviver com os meus 'intrusos'. A cada avanço corporal que tenho, devido ao tratamento hormonal, a presença deles me machuca mais. O uso diário do binder (faixa elástica para cobrir os seios) está me causando problemas respiratórios e dores na coluna. Sinto a necessidade de deixá-los ainda mais apertados, mesmo que me sufoque e eu não consiga respirar. Não abraço as pessoas com medo de sentirem o volume ou as faixas. É muito estranho que um homem barbudo tenha peitos tão grandes como os meus. Uso camisa preta e folgada com medo de que descubram que sou trans."

A revelação, que também é um pedido de ajuda para conseguir recursos para a retirada dos 'intrusos', os seios, é de Arthur Vinícius Gomes, pernambucano, de 21 anos, que atualmente mora em Salvador. A "mastectomia maculinizadora" é oferecida pelo SUS, mas o processo é longo e pode demorar até dez anos. Em hospitais particulares o procedimento custa de R$ 8 mil a R$ 20 mil.

"Eu me orgulho do homem que me tornei e o amo incondicionalmente. Não tenho vergonha de quem fui e de quem sou", postou Arthur Vinícius em foto de antes e depois do início da transição, comemorando seu aniversário de 21 anos. (Foto: Reprodução/Instagram)

A cirurgia de retirada dos seios também é o sonho de Pedro Benedito Filho, de 22 anos, que começou o processo de transição há 11 meses: "Eu não sabia o que era um transgênero, então me identificava como lésbica, até que um amigo veio conversar comigo sobre o assunto. Aí caiu a ficha, aos 19 anos. Minha mãe foi vendo minhas mudanças, mas até hoje não consigo conversar com ela. Nem ela, nem meus familiares me entendem, dizem que é algo momentâneo, que sou assim porque não 'provei da fruta'. Não recebo apoio de meus familiares, muito menos sou respeitado", revela.

Apesar de se identificar como trans homem hétero, Pedro se sentiu forçado a se relacionar com outros homens: "Fui obrigado a namorar homens para não sujar a imagem da família com boatos de que eu gostava de mulher. Por minha mãe eu estaria casado com um homem, preso no corpo e numa vida que nunca me pertenceu".

"Por eu ser um cara hétero, ouço mais comentários das mulheres cis* hétero. Elas falam que não querem se relacionar com um homem trans por não ter 'pênis de verdade', ou porque não é 'homem de verdade'. Esse tipo comentário também é feito por homens gays. Minha ex-companheira, por exemplo, me conheceu antes da transição, e da parte dela só recebi preconceito. Atualmente estou em um novo relacionamento e minha companheira me respeita bastante. São raras as pessoas que se comprometem 100% com uma pessoa trans. Tive sorte de encontrá-la", conta Pedro. (Foto: Arquivo Pessoal)

*Cisgênero ou apenas "cis" é o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu "gênero de nascença". Serve para designar pessoas não-trans.

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Estudante de Moda, Maju Andrade se entendeu como mulher trans aos 18 anos. "Já beijei meninas, já tive interesse por pessoas não-binárias*, mas só me relacionei com homens até agora. Ainda existe muito preconceito com os corpos trans, vejo muita rejeição do próprio meio LGBTTTIQ por causa dos genitais".

*Não-binário ou genderqueer são termos para identidades de gênero que não sejam exclusivamente homem ou mulher, mas uma combinação de gêneros.

 

Maju Andrade (Foto: Reprodução/Instagram)

Maju, que celebra o crescimento dos seios como resultado da transição, também exala felicidade pelo relacionamento com o namorado, Lucas, de 18 anos, homem trans. "Foi arrebatador", escreveu ela em seu Instagram.

Maju antes e depois da transição: "Mudando com o tempo <3", escreveu ela em uma rede social. (Foto: Reprodução/Instagram)

Luísa Ventim, de 25 anos, é cantora, atriz e estudante de Ciências Sociais na UFBA, e conta que se descobriu diferente aos 12 de idade: "Meu corpo sempre teve mais traços femininos que masculinos. Minha voz não engrossou como a maioria dos rapazes, e meus seios cresceram o suficiente para que eu fosse assediada e sofresse bullying por isso. Aos 15 começaram as disforias: os pelos em meu corpo e no rosto me davam muita tristeza, fora as roupas masculinas. Porém esse assunto, a transexualidade e questões de gênero, não estavam tão em alta e eu não sabia como levar isso". Ela explica que aos 21 anos se entendeu transexual com a ajuda de um amigo, e começou a introduzir aos poucos o assunto para a mãe.

"Me assumir trans exigiu uma postura firme, e minha mãe conseguiu aceitar. Temos uma ótima relação e ela me dá o maior apoio em diversos setores da minha vida, inclusive a transexualidade. Reconheço que é um privilégio, pois a relação da maioria das pessoas trans com seus familiares é conturbada, e a realidade de mais de 90% das meninas trans e travestis ainda é a expulsão de casa junto com a prostituição", expõe Luísa.  (Foto: Reprodução/Instagram)

1 assassinato a cada 48 horas

Dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) confirmam a declaração de Luísa sobre a realidade de travestis e transexuais no Brasil e mostram um cenário devastador: 86 pessoas trans foram assassinadas no primeiro semestre deste ano (1 a cada 48 horas). A maioria do gênero feminino, negras e prostitutas.

"A negação de tal motivação, é exatamente o que nos faz pensar o quanto a transfobia está naturalizada e é permitida em nossa sociedade. Negar a motivação transfóbica destes assassinatos é, antes de mais nada, jogar a culpa (por terem sido mortas) nas vítimas, ao tentar justificar que foram assassinadas – de forma quase sempre extrema – por estarem em ambientes violentos, em sua maioria na prostituição de rua ou sugerir que estavam envolvidas com atos ilícitos. É esquecer que foram o Estado e a sociedade, com todos os seus mecanismos simbólicos de exclusão que as colocou ali, naquele lugar. O não-lugar, como gostamos de nos referir no movimento social" manifesta-se a ANTRA em seu site.

(Imagem: Reprodução/Site ANTRA)

"Ser trans não é algo que me incomoda, mas é uma tatuagem na testa, compreende? Afinal, quantas meninas trans e travestis você já abraçou no seu dia a dia? Quantas meninas trans e travestis você tem no seu meio de trabalho? Quantas meninas trans e travestis estão dentro de universidades? Não pensam se você é a mais inteligente, mais engraçada, mais atenciosa, ou qualquer outra característica de personalidade. Você é resumida apenas a isso e as pessoas sempre vão falar 'Ah, Fulana? A trans, né?!'. O incômodo não está em terem curiosidade se eu sou trans, mas no fato de que as pessoas não sabem se relacionar com pessoas trans na grande maioria das vezes" desabafa Luísa, me deixando com um nó na garganta.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!