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Microtraição: tem um jeito de evitar as brigas causadas por esse tema

Universa

03/08/2018 05h00

(Foto: Arquivo Pessoal)

– Namastê?
– O significado é lindo, mas não vai funcionar para o que queremos – respondi.
– Ganges?
– Entendo que você está buscando inspiração na Índia, amor, mas precisamos de algo mais impactante.

Queríamos encontrar uma palavra de segurança que pudesse ser usada num momento extremo. Adeptos de BDSM, que são práticas de bondage, dominação, submissão e sadomasoquismo, sempre têm uma. Ela funciona como um código para comunicar que algo deve ser interrompido imediatamente.

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Não praticamos BDSM. Nem estávamos falando de sexo, aliás. A intenção era encontrar uma sentença que funcionasse como um "cessar fogo", uma bandeira branca a ser hasteada no meio de uma discussão, algo que pudesse, numa fração de segundo, "esfriar os ânimos".

"Sibéria"

Uns minutos de brainstorming depois e chegamos a "Sibéria". Lembrei que, mais que uma região gélida da Rússia, a Sibéria foi uma terra de exílio. Justamente por remeter a coisas desagradáveis – frio polar e degredo –, me pareceu uma boa. Gostei.

Será que eu deveria escrever sobre isso? Passei uns dias refletindo. Nunca tive nenhuma reserva em falar de sexo, mas não tenho a mesma facilidade para expressar sentimentos. "É que eu sou fraco, frágil, estúpido pra falar de amor", como diz uma música do Jão que eu adoro.

Vivemos muitas coisas incríveis, mas às vezes nos comportamos como duas meninas birrentas e mimadas. Conversamos por horas a fio sobre política e artes e, no momento seguinte, brigamos por coisas ridiculamente pequenas, como um like na foto de alguém. Mas o ciúme por um motivo que pode ser simples, bobo, não é necessariamente um ciúme disparatado.

O acordo

A palavra do momento é microcheating ou "microtraição". Como o nome sugere, tem a ver com pequenas atitudes, principalmente nas redes sociais. Esmiuçando, são coisas que não são, exatamente, adultério, mas pavimentam o caminho que pode levar a ele, como curtidas e mensagens que indiquem "disponibilidade". É meio subjetivo, mesmo.

No nosso relacionamento, até chegarmos a um consenso sobre microtraições e o limite entre o permissível e o inaceitável, tivemos muitos desentendimentos. A maioria deles terminou em brigas – que talvez pudessem ter sido minimizadas com uma palavra de segurança que congelasse o cenário beligerante que criamos sem nos dar conta.

– Acha que a gente consegue? – perguntei, sobre levar a palavra de segurança a sério.

– Acho! – ela respondeu, com os olhos brilhando como os de uma criança que vai brincar de um jogo novo.

Um ou dois dias depois, nos colocamos à prova. É difícil determinar, com precisão, o momento em que uma pergunta ou uma resposta disparam um gatilho emocional e acertam um alvo não desejado. Antes da discussão pegar fogo, interrompemos: "Sibéria".

Funcionou. Mais que uma ideia maluca, quase infantil, a palavra simboliza um acordo; respeitá-lo no auge de um momento estressante é demonstrar que a relação importa. Muito. E não há irritabilidade que resista a isso.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!