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“De vez em quando é importante conversar com um homossexual". Contém ironia

Universa

2023-02-20T19:05:00

23/02/2019 05h00

"Às vezes você tá com uma ponta 'dupra', aí infelizmente você tem que dizer assim 'eu te respeito', depois você dá uma lampadada na cara e tá tudo certo", ironiza Gustavo Mendes na pele de Danada Alves (Imagem: Reprodução/Instagram)

"De vez em quando é importante conversar com um homossexual. Às vezes você tá com uma ponta 'dupra', aí infelizmente você tem que dizer assim 'eu te respeito', depois você dá uma lampadada na cara e tá tudo certo", ironiza a personagem Danada Alves, criação do humorista Gustavo Mendes, numa sátira à controversa ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves.

Numa bizarra coincidência da vida imitando a arte – que seria cômica se não fosse trágica – menos de uma semana depois do vídeo profético postado pelo ator, Damares publica em seu Twitter: "Hoje estive com o maquiador Augustin, falamos sobre uma grande campanha que faremos de combate à violência contra mulheres com a participação dos profissionais da área da beleza. Eles serão treinados para identificar mulheres vítimas de violência e orientá-las na busca de proteção." Oi? Não faria mais sentido treinar profissionais das áreas da saúde, segurança e educação para amparar e orientar mulheres e crianças vítimas de violência?

Pet de hétero?

Seguido por quase 3 milhões de pessoas no Instagram, Augustin Fernandez é uruguaio e ganhou popularidade criticando famosos brasileiros na internet. Giovana Ewbank, Bruno Gagliasso, Bruna Marquezine e Mc Carol são algumas das celebridades que já sofreram seus ataques. Assumidamente gay e fã de Jair Bolsonaro – a despeito de uma das afirmações mais célebres do presidente, a de que "Ter filho gay é falta de porrada" –, o maquiador certa vez declarou que "tem gente que quer privilégios por ser gay", e ironizou a homofobia, o fascismo e o racismo. Evangélico, Augustin endossa as ideias da pastora e ministra Damares e já repetiu que "quando você nasce, nasce menino ou nasce menina, não tem um terceiro gênero quando nasce".

"Vai lá e arrasa, mito!", legendou Augustin em foto com Bolsonaro (Foto: Reprodução/Instagram)

Também defensor de Bolsonaro, e com mais de 12 milhões de seguidores no Instagram (para se ter uma ideia, o presidente da República é seguido por 10 milhões na mesma rede social), o digital influencer Carlinhos Maia revelou publicamente sua homossexualidade no início deste mês e anunciou que vai se casar com o namorado, com quem se relaciona há dez anos. A declaração, que começou romântica, foi seguida por um ataque homofóbico e transfóbico de Carlinhos: "o amor que eu vivo é meu e não mudará. Vocês não vão ver por aqui beijos, abraços, amassos. Vocês vão ver por aqui o respeito, como sempre foi", disse. "Gay é paz, gay é arco-íris, e nós chegamos muito longe. Chegamos longe sendo homens, trabalhando, mostrando que somos iguais a todos. (…) Vocês não vão me ver por aqui botando sainha, shortinho, salto alto, botando batom na boca, não", prosseguiu, numa clara referência às drag queens e travestis.

Apesar de assumir a homossexualidade e anunciar no Instagram o noivado com Lucas Guimarães (em pé), Carlinhos decretou: "vocês não vão ver por aqui beijos, abraços, amassos" (Foto: Reprodução/Instagram)

"Não tenho nada contra homossexuais, tenho até amigos que são"

Quantas vezes você já ouviu frases do tipo "Não tenho nada contra homossexuais, tenho até amigos que são", "Pra ser lésbica não tem que parecer homem", "Pode até ser gay, mas não precisa desmunhecar"? Esses insultos nocivos disfarçados de "opinião"  fazem parte do repertório heteronormativo que nos habituamos a ouvir e replicar.

A "lampadada na cara", a que Gustavo Mendes se refere na sátira reproduzida no primeiro parágrafo deste texto aconteceu, de fato, na Avenida Paulista, em 2010. Três amigos homossexuais foram atacados por um grupo formado por cinco jovens armados com lâmpadas fluorescentes aos gritos de "suas bichas!", "vocês são namorados!". Os três rapazes sobreviveram, por milagre. Milhares de outras vidas foram ceifadas, de forma brutal, pela intolerância.

No Brasil, de 2011 a 2018 foram registradas 4.422 mortes por LGBTfobia, ou seja, em razão de orientação sexual ou identidade de gênero. Uma morte a cada 16 horas. Os dados, inéditos, foram levantados pelo ex-coordenador da Diretoria de Promoção dos Direitos LGBT do Ministério dos Direitos Humanos, Julio Pinheiro Cardia.

#PreconceitoNãoÉOpinião

Dois anos atrás as cantoras Pepê e Neném, lésbicas assumidas, gravaram um vídeo pró-Bolsonaro apoiando a postura homofóbica do candidato: "A gente também não aceita certas coisas. Ninguém é obrigado a ver nada de ninguém no meio da rua, sentado num cinema… Tem gente que passa do limite. Para que você vai passar para a rua coisas que você pode fazer dentro de um quarto?!", disse Neném, defendendo a ideia retrógrada de que o lugar dos homossexuais é no armário.

"Parabéns pelo depoimento irretocável dessa dupla fantástica!", respondeu Bolsonaro à época, com um largo sorriso no rosto em um vídeo mambembe gravado em casa, desses que alicerçaram sua campanha e o fizeram chegar onde está. No primeiro dia de seu mandato, ele assinou a Medida Provisória nº 870/19, que retira a população LGBT da lista de políticas e diretrizes destinadas à promoção dos Direitos Humanos.

A esperança sobrevive no Judiciário, onde a criminalização da homofobia e da transfobia está sendo votada pelos 11 ministros do STF. Quatro foram favoráveis à criminalização. São necessários seis votos para que, na prática, quem discriminar, ofender e agredir gays ou transgêneros esteja sujeito à punição de um a três anos de prisão. Assim como no racismo, o crime seria inafiançável e imprescritível. Em seu parecer, o ministro Celso de Mello declarou que a comunidade LGBT é "marginalizada", "estigmatizada" e "discriminada quanto ao acesso a direitos básicos e à proteção efetiva das leis penais". #PreconceitoNãoÉOpinião #ÉCrimeSim #CriminalizaSTF

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!