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Comediantes queer, elas falam de sexo e política como você nunca viu antes

Universa

06/08/2019 19h05

Natural de Aracaju, capital sergipana, Bubiz Barros é um dos maiores expoentes do humor nacional  (Foto: Reprodução/Instagram)

"Nordestina, adotada, gorda com o estômago reduzido e humorista." É assim que a comediante Bubiz Barros, 26, se define em algumas de suas redes sociais. Para se ter uma ideia do sucesso que ela faz na internet, só em plataformas como YouTube, Instagram, Facebook e Twitter, são mais de 150 mil fãs. Bastam apenas alguns minutos assistindo a um de seus shows para entender por quê.

"Bolsonaro ganhou, pei pei (sinal de arminha), que bosta! Acho bom vocês rirem comigo enquanto podem (ela desafia a plateia, que gargalha). No dia das eleições minha mãe me ligou: 'Filha, continue sendo como você é, do jeito que você é… mas, se possível, qualquer coisa você diz que é câncer'", dispara, ácida, sobre o visual careca que adota, e claro, numa referência à sua homossexualidade. Bubiz é assumidamente lésbica e se orgulha disso, mas nem sempre foi assim.

"Sabia que no fundo eu gostava de uma xoxotinha, mas eu falava 'não, chupo rola, sou hétera!'"

"Sempre fiz teatro, desde nova, e tinha 16 anos quando descobri o stand up. Mas não era assumida, não me aceitava ainda. Sabia que no fundo eu gostava de uma xoxotinha, mas eu falava 'não, chupo rola, sou hétera!'. Aí com meus 20 anos comecei a morar fora, no Rio de Janeiro, e me descobri. Beijei a primeira menina, comecei a me aceitar, e lancei meu primeiro vídeo falando sobre ser lésbica, em 2016. Fui a primeira lésbica do Brasil a fazer um texto de stand up sobre assunto. Era meio cru, estava com medo de entrar nesse tema. Pensava: 'Será que sapatão ganha dinheiro? Todas elas trabalham na Chilli Beans, são expulsas de casa… Como é que elas vão comprar meus ingressos?'. E fui pra esse universo ainda receosa", entrega.

Debochada, Bubiz faz sucesso nas redes sociais, onde diverte mais de 150 mil seguidores  (Imagem: Reprodução/Instagram)

"Depois que o meu pai faleceu, há dois anos, eu despiroquei. Comecei a desenvolver esse tema porque acho que as pessoas precisam ouvir falar sobre ele. Eu queria trazer uma linguagem diferente do stand up, então não é só stand up, é um solo de comédia porque tem uma passagem sobre a morte do meu pai, sobre me aceitar lésbica… Trago pro público questões que eu já passei de preconceito e homofobia", conta Bubiz.  "Muitos pais que vão me assistir, depois pedem pra falar comigo: 'Ai, minha filha é (lésbica) e eu vi seu show e gostei, vou conversar com ela'. É um show pra todo mundo mesmo, porque eu pego bem na ferida.

"Quando as pessoas acham engraçado, elas lembram durante mais tempo daquilo"

Carioca, vivendo há um ano e meio em São Paulo, a comediante Babu Carreira, 30, é bissexual e integra o primeiro grupo de stand up LGBTQ+ do Brasil, o Não Sou Obrigadx. "A ideia é que a gente se sentisse à vontade para abordar temáticas do universo queer e que as pessoas na plateia se sentissem acolhidas, não atacadas. Sentimos necessidade de criar um espaço seguro pra falar de maneira fluida e não preconceituosa sobre as nossas vivências. A gente tem apresentado uma forma de fazer stand up muito diferente pras pessoas, com um cuidado pra esse material não ser misógino, gordofóbico, machista ou racista", expõe Babu.

Babu é uma das cinco comediantes que compõem o Não Sou Obrigadx, o primeiro grupo de stand up LGBTQ+ do Brasil, criado há um ano (Foto: Reprodução/Instagram)

Formada em Design e Artes Cênicas, Babu conta que sempre usou o humor como ferramenta em todos os seus trabalhos. "Eu percebo que quando as pessoas acham engraçado, elas lembram durante mais tempo daquilo. Eu já era formada como atriz e estava dando palestras sobre gordofobia em escolas públicas de graça, porque era um tema que me interessava muito, e eu percebi que quando eu falava as coisas de maneira engraçada, as pessoas prestavam mais atenção. Então, basicamente, comecei a fazer stand up por causa dessa vontade de palestrar e de sentir que eu tinha coisas à acrescentar à visão de mundo das pessoas."

"Tudo tem potencial pra ser engraçado"

Para Babu, não há limites, nem tabus no humor – mas é importante que haja um porquê. "Eu falo muito de corpo, de gordofobia, de body positive… E eu tenho uma paródia de 'Despacito', que virou 'Mini pinto', e cantei num evento de moda plus size. Então fui abordada por um rapaz que perguntou como eu podia defender o corpo gordo e brincar com o pinto pequeno de alguém. Isso me fez refletir muito sobre porque eu tinha sentido necessidade de falar sobre aquilo e cheguei à conclusão de que o que eu queria com aquela canção era fazer uma crítica ao falocentrismo em relação ao sexo. Tem muita gente que me pergunta 'Ah, e pinto pequeno? Você realmente se incomoda?', eu falo 'Cara, eu transo com mulheres que não tem nem pinto, se tamanho fosse muito importante eu não seria nem bi!'".

"Cara, eu transo com mulheres que não tem nem pinto, se tamanho fosse muito importante eu não seria nem bi!", rebate Babu, sobre o direito de falar sobre "mini pintos" (Foto: Reprodução/Instagram)

"Sendo alguém que não é padrão, eu tenho lugar de fala pra falar de corpo, sim, e eu acho que no humor você pode falar de tudo. O importante é a piada fazer sentido e a distorção cômica ser maior do que o horror que você tá falando. Acho que tudo tem potencial pra ser engraçado, absolutamente tudo, e o humor negro também é válido, mas você tem que saber em que momento você está fazendo, pra quem você está fazendo e a plateia tem que estar a fim daquilo. O que acho que não dá é pra você falar 'ah, foi só uma piada', não. Me explica porque você resolveu falar aquilo e qual a importância daquilo na sua vida", reflete.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!