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Elas defendem a abolição da prostituição e o fim da indústria do sexo

Universa

21/08/2019 04h00

"Ela faria isso se tivesse chance de fazer outra coisa? Esse é o ponto", defende ativista (Foto: Joá Souza / iStock)

Compreendi o feminismo muito tardiamente, poucos anos atrás. Até então, por preconceito e desinformação, imaginava que se tratava de uma ideologia que pregava a superioridade do sexo feminino em relação ao masculino. E eu estava absolutamente enganada. Feminismo é, principalmente,  sobre igualdade de direitos e oportunidades – o que está longe de ser uma realidade no Brasil e no mundo. Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apresentado em março deste ano constatou que 1,3 bilhão de mulheres trabalhava em 2018, em comparação a 2 bilhões de homens. Ainda segundo a OIT, a remuneração das mulheres é 20% menor que a dos homens, e essa discrepância estaria relacionada a uma "penalidade salarial por maternidade".

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No nosso país, onde há mais de 13 milhões de pessoas desempregadas, segundo o IBGE, a prostituição poderia ser considerada uma alternativa? Alheia ao momento econômico, a indústria pornô não dá sinais de crise: 2 milhões de filmes eróticos são comprados e vistos por mês no Brasil (24 milhões por ano). Então, afinal, se o feminismo existe pela libertação das mulheres, posicionar-se contra a prostituição e a indústria pornô não seria, de certa forma, limitar a atuação feminina? Tirar das mulheres o poder de escolha? Para uma corrente de feministas que defende o abolicionismo, não. "Essa é uma dúvida muito comum, porque a gente parte de premissas um pouco confusas, desde a ideia do que seja feminismo, até sobre o que seria escolha. A gente precisa ter um olho no micro, mas não pode esquecer o macro. É que a gente questiona o que é escolha dentro de um modelo capitalista, onde mulheres são o grupo 70% mais pobre, e que é historicamente explorado tanto nas suas capacidades reprodutivas, quanto na sua mão-de-obra doméstica", explica uma das integrantes do QG Feminista, um grupo formado por mais de 30 mulheres com idades entre 18 e 45 anos, das mais variadas profissões.

Postagem do coletivo QG Feminista, que existe há dois anos e só no Instagram tem mais de 56 mil seguidores (Imagem: Reprodução/Instagram)

Liberdade de escolha?

"Há mulheres que 'escolheram' a prostituição? Há, sim. Mas elas são estatisticamente ínfimas. Se a maioria das mulheres é explorada, então elas são a regra, não a exceção. Se uma mulher tem plenas condições de estudar, de ter uma carreira, de realizar seus sonhos financeiramente, e aí ela pensa 'olha, mas eu quero ganhar meu dinheiro dessa forma', nós entendemos que, sim, ela 'escolheu', sempre com aspas. Se uma mulher não consegue emprego, precisa alimentar filhos, não se insere no mercado de jeito nenhum, ou qualquer outro motivo faz com que ela se veja na situação de vender sexo por coação financeira, ela está escolhendo? Ela faria isso se tivesse chance de fazer outra coisa? Esse é o ponto", expõe outra integrante do QG Feminista.

"A lógica dos homens é a intimidação; a da mulher, submissão"

"Por que a lógica dos homens não é a da prostituição? O homem pobre entra para a criminalidade porque a lógica dele é a da violência. A opção dele não é vender o corpo, é usar o que aprendeu: a intimidação. As mulheres usam o que aprenderam também, a submissão, a tratar os próprios corpos como mercadoria, algo de que elas podem dispor. E os homens se aproveitam disso. O que o feminismo quer é que a mulher tenha escolha, de verdade", pontua mais uma integrante do QG Feminista.

"A ideia de empoderamento foi espertamente desvirtuada"

"Muita confusão que existe dentro do feminismo é por causa do não entendimento de conceitos básicos. Um é a ideia de empoderamento. Empoderamento é dar poder. Só que em uma sociedade patriarcal, dominada por homens como a nossa, é impossível o empoderamento individual, porque, pra que serve o poder? O poder não é pra você se sentir bem, o poder não é pra você se sentir bonita. Isso não é empoderamento, isso é melhora de autoestima. Empoderamento é você ter poder pra mudar estruturas. Quem tem poder? Homens. Eles fazem as leis, eles mandam prender, eles fazem a ciência, mandam na tecnologia, nas empresas, nos países. Em todos os espaços de poder, o que você vê? Homens. E você não vê homens se 'empoderando' aparecendo de biquíni na capa de uma revista. A ideia de empoderamento para mulheres foi espertamente desvirtuada", alerta outra ativista do coletivo.

"As mulheres não estão mais protegidas quando a prostituição é regulamentada"

Aline Rossi, 27, é ativista feminista há quase 10 anos, autora do perfil Feminismo com Classe, no Instagram, e já defendeu a ideia regulacionista, a favor da legalização da prostituição, mas mudou de lado. "Eu achava que reconhecer a prostituição como um trabalho era o melhor caminho pra gente assegurar o direito das pessoas. Eu estava convencida de que fazia muito sentido a ideia de escolha, empoderamento, liberdade pessoal… Só que isso é um olhar pouco crítico da situação. As pessoas que estão na prostituição, na maioria, não estão porque escolheram, então resolvi pesquisar essa realidade nos países que regulamentaram a prostituição. Sabia que alguns tinham regulamentado há mais de 20 anos (Austrália, Nova Zelândia, Holanda e Alemanha são alguns dos países em que a prostituição é legalizada) e as estatísticas eram bizarras. As mulheres não estavam mais protegidas lá, e isso me fez mudar de lado. O aumento da oferta, muitas vezes movido pelo tráfico sexual, colocava as mulheres num risco absurdo, porque fazia com que aceitassem coisas que antes eram impossíveis como o beijo, que aumenta o risco de contágio de ISTs, e o sexo sem camisinha, porque já havia tanta gente oferecendo aquilo que os preços caíram, então ou você aceitava ou perdia o cliente."

Publicação do perfil Feminismo com Classe, administrado pela ativista Aline Rossi (Imagem: Reprodução/Instagram)

A ativista lembra que mudanças estruturais levam tempo, mas dependem, sobretudo, da coletividade. "É preciso unir as pessoas que têm essa pauta em comum e agir coletivamente. É uma luta gradual. O governo que a gente tem infelizmente não me dá nenhuma esperança de que a gente tenha pequenas reformas que melhorem a condição das mulheres pra já, então a gente tem que fazer a luta nesse sentido. É importante as mulheres se juntarem, se organizarem e não abrirem mão dos seus direitos humanos básicos, de soberania ao próprio corpo e de vida com dignidade, só pra atender essa comercialização como se fosse a única saída que nós temos para sobreviver num período de crise econômica."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!