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Ela sonhava em ser freira; hoje é dona de uma rede de sex shops

Universa

30/10/2019 04h00

"Minha vida dá uma novela!", brinca a empresária Ana Canziani, 41, que na foto segura um clitóris de pelúcia (Foto: Reprodução/Instagram)

"Minha mãe fala que quando eu era pequena, enquanto todo mundo brincava de boneca, eu recortava imagens de bolsas e batons nas revistas femininas e montava o meu catálogo, fingindo que ia vender. Tinha até uma pastinha executiva que eu levava pra todo lado!", conta a empresária catarinense Ana Canziani, 41. Ainda na infância, aos 9, ela disse à mãe que queria vender suco na praia para ganhar o próprio dinheiro. E foi, com uma amiga. Aos 13, sozinha, produzia e comercializava bijuterias.

Apesar da aparente vocação para os negócios, seu objetivo de vida era bem menos mundano e mais divino: "Sonhava em ser freira, desde pequenininha. Até hoje fico emocionada quando vejo freira na rua". A revelação surpreende porque vem de uma das maiores empresárias do segmento erótico no país, dona de cinco sex shops e de uma marca de produtos para BDSM, a Marradame.

Quem imaginaria?

De família tradicional, Ana estudou em um colégio de freiras. Aos 15, numa festa da igreja, conheceu o primeiro namorado – e engravidou. "Onde estudava, eu era a única mãe. Foi um choque pra família. Eu não era uma menina que saía, foi com a primeira pessoa que eu beijei na boca! Eu não usava nem blusa sem manga, decote, nada. Fui usar blusa decotada depois dos 20 anos, porque eu achava indecente. Pensa!". Ela terminou com o namorado durante a gestação e seguiu com os estudos. Formada em Fonoaudiologia, trabalhou por mais de uma década na área até o dia em que um amigo, gay, sugeriu que ela começasse a fabricar umas "cuecas diferentes".

Ana e o filho, que atualmente mora no exterior (Foto: Arquivo Pessoal)

A virada

"Em dez dias corri atrás de tecido, de costureiras, comecei a fazer as cuecas e levei numa balada que ele indicou. Às vezes eu passava a noite inteira lá e vendia uma cueca, às vezes não vendia nenhuma. Aí os frequentadores começaram a perguntar: "Tu não tem um lubrificante? Uma pomadinha?'. Foi literalmente do nada. Não foi pensando 'Ai, quero ter um sex shop'. Eu queria ter um uma loja de acessórios, de bolsas, e o sex shop acabou acontecendo", recorda ela, que inaugurou a primeira loja em Navegantes, há 17 anos, e abriu todas as outras quatro mesma região, em Santa Catarina.

"O que acontece com os pequenos municípios, como Navegantes (cidade com pouco mais de 70 mil habitantes), é que as pessoas se conhecem, então acaba surgindo um certo conservadorismo. Tenho clientes que são de Navegantes e que não vão à loja de Navegantes porque sabem que 'a loja é da Ana'. Acabam vindo a um sex shop em Balneário Camboriú (a 1 hora de carro), sem saber que é meu, e aí muitas vezes me encontram dentro da loja e querem cair pra trás!", diverte-se.

Ativa nas redes, a empresária tem quase 100 mil seguidores em sua conta pessoal no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram)

BDSM

"Sou adepta e mega admiradora do BDSM pela questão do respeito que existe dentro dessa liturgia, do estilo de vida que não existe no mundo convencional, no 'mundo baunilha'. O respeito é a base de tudo dentro do BDSM. Comecei a estudar pra entender como funcionava, porque inicialmente assusta, até você entender como é a psicologia. Pra fazer muitos dos produtos você tem que entender da prática, senão não consegue desenvolver com segurança", explica ela, que além de comercializar mais de 5 mil produtos eróticos, criou sua marca própria, a Marradame, para os BDSMers.

"'Marradame' é um nome eu que montei porque um monte de gente me achava marrenta, e um monte de gente achava que eu era madame" (Foto: Reprodução/Instagram)

"Não vendo o produto, e sim o prazer que ele proporciona"

Referência no segmento, a empresária também é palestrante e consultora, tem um canal no YouTube, e cuida, pessoalmente, das cinco lojas e suas respectivas contas no Instagram – que juntas têm quase 200 mil seguidores: "Cada hora fico com uma coisa na cabeça. Faço tudo divididinho pras pessoas certas procurarem a gente no lugar certo. É como qualquer outro ramo, se tu se dedica, o negócio anda; se tu para, o negócio para. Minhas vendedoras são treinadas a não vender o produto, e sim o prazer que ele proporciona. É um ramo difícil de trabalhar porque tu lida com intimidade. Inovação e criatividade são as chaves do sucesso", entrega.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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