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"The L Word": a série lésbica que marcou uma geração está de volta

Universa

04/12/2019 04h00

Da esquerda para a direita: Alice (Leisha Hailey), Bette (Jennifer Beals) e Shane (Katherine Moenning) estão de volta em "The L Word: Generation Q" , que estreia no próximo dia 8 (Foto: Reprodução/Instagram)

Lembro, com detalhes, do dia em que assisti à 'The L Word' pela primeira vez. Eu tinha 18 anos e estava no sofá da casa da minha primeira namorada. Apesar de ter me entendido lésbica aos 16, tudo era muito novo pra mim. Ver na TV a naturalidade com que a rotina daquelas mulheres lésbicas e bissexuais era retratada foi, entre uma mistura de sensações, inspirador. Elas eram inteligentes, divertidas, bem-sucedidas… tudo que eu queria ser quando crescesse. Ali, naquele momento, isso me pareceu ser completamente possível – e com o passar do tempo descobri que era mesmo.

Representatividade importa, e não exagero em dizer que essa série me marcou e me transformou revelando situações e possibilidades que até então eu desconhecia. 'The L Word', a primeira série norte-americana com personagens majoritariamente lésbicas e bissexuais, exibida de 2004 a 2009 (as 6 temporadas podem ser vistas no Globoplay), marcou uma geração e agora, dez anos depois, está de volta. Nesta semana, conversando no Twitter sobre o retorno da produção, descobri que muitas outras mulheres sentiram o mesmo que eu; e essas são as histórias e as experiências de cinco delas.

"Descobri a arte de ser sapatão!", brinca Wanessa Aparecida Leite, 30, de Curitiba/PR (Foto: Arquivo Pessoal)

"Tinha de 19 para 20 anos e tinha acabado de ter meu filho. Eu procurava por séries ou filmes lésbicos, encontrei 'The L Word' e tudo foi muito louco. Assistir às cenas era como descer uma montanha-russa, de tanto frio na barriga. Mudou tudo! Logo comecei a marcar encontros com mulheres no bate-papo do UOL e descobri a arte de ser sapatão! Hahaha! Me identifiquei com a personagem Jenny, que era casada, assim como eu na época. Eu pegava o notebook e assistia de madrugada, sem meu marido saber. Sou cem por cento lésbica, casada com uma mulher há cinco anos. Me sinto aliviada, aquele não era o meu mundo."

"Eu me vi demais ali, porque também não entendia muito bem minha sexualidade e até então nunca tinha beijado nenhuma garota", revela Caroline Thieves, 30, de São Paulo/SP (Foto: Arquivo Pessoal)

"Eu devia ter uns 15 anos quando vi a série pela primeira vez. Lembro que me chamou a atenção a cena em que a Jenny espia a Shane com outra garota na piscina, detrás da cerca, e isso despertou um interesse nela. Eu me vi demais ali, porque também não entendia minha sexualidade e até então nunca tinha beijado nenhuma garota, pelo contrário, dizia que nunca faria isso. Foi muito importante pra mim naquela época perceber que não tinha nada de errado comigo. Cresci em um meio completamente heteronormativo e homofóbico. Eu era uma garota de 15 anos, estudante de colégio católico. Pode imaginar quantos LGBTs eu conhecia, né?! Só uns dois anos depois conheci meu primeiro amigo gay e minha primeira amiga lésbica. Ainda assim, eu não tinha muita ideia de como era a cena LGBT em São Paulo, e fui conhecendo isso aos poucos. Sempre fui super tímida pra conversar, e foi graças à Shane que eu consegui falar com a primeira garota em uma balada. Representatividade importa, sim, e eu vou defender isso pra sempre!"

"Assistindo à série percebi eu não era anormal, que existiam mais pessoas que sentiam o mesmo", conta Martha Souza, 32, de Mogi das Cruzes/SP (Foto: Arquivo Pessoal)

"Cresci em um lar evangélico, onde tudo era pecado. Ouvia que eu tinha que arrumar um bom marido que tivesse posses e fosse da igreja. Eu não me aceitava, chorava pedindo a Deus pra tirar de mim esses sentimentos, pedia pra gostar de algum menino. Um dia, aos 14, numa noite sem sono, descobri a série. Achei interessante e senti que isso poderia até me fazer entender o tabu em casa. Assistindo à 'The L Word' percebi eu não era anormal, que existiam mais pessoas que sentiam o mesmo. Ainda demorei um pouco mais pra me assumir, mas eu já me aceitava, já não sentia repúdio do que sou. Quanto à minha família, até hoje tentam me fazer arrumar um marido, mas não ficam empurrando a Bíblia pra mim."

"Eu assistia pelo computador de casa, de madrugada, para os meus pais não verem, e comecei a me identificar", entrega Natália, 23, de Castilho/SP (Foto: Arquivo Pessoal)

"Desde criança eu sempre soube que era muito diferente das outras meninas da minha idade. Com o passar do tempo, comecei a perceber que meu gosto por meninos não era tão aflorado quanto o das minhas amigas. Elas contavam das aventuras e tudo mais, e eu achava aquilo muito besta. Na minha cidade, que é uma cidade bem pequena, algumas lésbicas dominavam o meio LGBT, e me chamavam a atenção, então decidi pesquisar na internet coisas relacionadas ao assunto. Foi aí que eu tive o primeiro contato com 'The L Word'. Eu assistia pelo computador de casa, de madrugada, para os meus pais não verem, e comecei a me identificar. Neguei até onde eu pude que eu gostava de mulheres, porque ainda era um grande motivo de preconceito, mas enquanto eu negava para as pessoas, dava uns beijos no sigilo. Só fui me assumir de verdade no primeiro ano de faculdade. Tive o apoio dos meus amigos e da minha família. No começo, meu pai foi o mais resistente à mudança repentina de visual, mas hoje em dia é bem tranquilo, inclusive assinei o Globoplay só pra ver novamente essa série que marcou a minha vida."

"A série foi tão impactante pra mim que eu minha ex, com quem descobri 'The L Word', terminamos há alguns anos, mas retomamos o contato por causa do retorno e estamos marcando de assistir juntas!", conta Isadora Lemes D'avila, 21, de Porto Alegre/RS (Foto: Arquivo Pessoal)

"Conheci a série aos 15 anos, por curiosidade, e aquilo começou a expandir minha percepção do que eu sentia, mas não entendia. Na mesma época conheci uma menina que trabalhava comigo e se entendia como lésbica. Começamos a falar sobre, e isso nos aproximou. Acabamos namorando e terminando de ver a série juntas. Graças a Deus minha mãe foi super 'de boas' e aquilo mudou a minha vida. Sou bissexual. A série foi tão impactante pra mim que eu e essa menina terminamos há alguns anos, mas retomamos o contato por causa do retorno e estamos marcando de assistir juntas!"

No próximo domingo, 8, estreia "The L Word: Generation Q", exclusivamente no Showtime. Para se ter uma ideia do impacto desse lançamento, basta olhar os números: o teaser (em inglês) da nova temporada teve 4 milhões de visualizações no YouTube (há versões legendadas em português). No perfil oficial da série no Instagram, já são mais de 100 mil seguidores – que se multiplicam freneticamente na medida em que a data de reestreia se aproxima.

Bateu nostalgia? Sim. Ansiedade, também. 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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