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“É muito louco ser uma mulher trans com deficiência", revela escritora

Universa

11/04/2019 04h00

"O rosto é de princesa, mas é cada pneu de trator que a gente tomba que é babado", brinca Leandrinha, sobre o abdome trincado (Foto: Reprodução/Instagram)

Ela é escritora, fotógrafa, palestrante, crossfiteira e, também, uma mulher trans portadora de necessidades especiais. É cadeirante. "É muito louco ser uma mulher trans com deficiência. Em cima dos corpos com deficiência existe o estigma de 'ai, coitadinho', e pro travesti é 'ah, aquele corpo à margem, com o qual não quero conviver socialmente'. Então quando as pessoas param para me olhar, têm aquele conflito: 'tenho que ter pena porque é uma pessoa com deficiência ou repulsa porque é um corpo trans, travesti?'. E é nesse momento que digo 'esse corpo aqui tá ok e só chegou até aqui porque é esse corpo', explica Leandrinha Du Art, 24, que nasceu com uma condição rara, a Síndrome de Larsen, que causa má formação dos ossos.

Leandrinha nasceu com Síndrome de Larsen (Foto: Reprodução/Facebook)

Mineira da cidade de Passos, Leandrinha viveu a maior parte da infância em hospitais, onde foi submetida a 23 cirurgias para correções ósseas. Na adolescência, ela enfrentou desafios ainda maiores. "Era uma jovem frustrada com meu corpo, escondia as minhas imperfeições. Usava blusas largas, tinha vergonha das minhas mãos, dos meus braços", revela. "Ser uma pessoa com deficiência me deu um preparo maior para me entender como mulher trans e mostrar pra minha família quem eu era. Esse entendimento de ser um ser feminino, de ser mulher, eu já tinha desde pequena, mas não entendia o quanto isso era aflorado em mim."

"Perdi a virgindade no banheiro da escola"

"Lembro como se fosse hoje. Perdi minha virgindade aos 14 anos, dentro do banheiro da escola. Tava um calor de 40°C, e eu tava de moletom, escondendo todo o meu corpo, e o menino falou que queria beijar a minha boca. Fiquei perplexa, porque era o menino mais lindo da escola, e era da minha sala. Eu jamais iria chegar nele, não tinha essa audácia pra romper a barreira da timidez e me declarar. Ele me tirou da cadeira de rodas, me sentou na pia e a gente se beijou muito, muito, muito. Não estou recomendando que transem no banheiro, mas foi incrível. Foi um cara super respeitoso, que viu para além do meu corpo, para além do que eu mostrava, e isso fez com que eu tivesse uma compreensão mais ampla. Passei a exibir meu corpo e fazer dele referência graças à minha sexualidade, por entender que eu era um corpo liberto", recorda.

"Depois que eu me entendi enquanto mulher, eu vivo uma revolução!" (Foto: Reprodução/Facebook)

"Meu corpo é torto, defeituoso e aleijado, mas que explora e vivencia sua sexualidade ao máximo"

"LGBTs com deficiência existem, eles têm voz. Anos atrás eu não via essas pessoas na rua, muito menos exteriorizando sua sexualidade", conta ela, que tem mais de 59 mil seguidores no Facebook e 14 mil no Instagram. "Eu tive que ser a primeira ali. E depois que me entendi enquanto mulher, eu vivo uma revolução! Agora é o meu corpo pautando para corpos iguais ao meu. É a minha história sendo referência e inspiração pras pessoas. Falo da minha sexualidade e das minhas experiências sexuais abertamente. Escrever contos eróticos me deu uma projeção nacional. Hoje tem pessoas se olhando no espelho graças a mim. Tem mulheres transando com a luz acesa graças a mim. O meu corpo é um corpo torto, defeituoso, aleijado, mas é um corpo que explora e vivencia sua sexualidade ao máximo".

"A gente sabe que existem os devotees, que é quando você tem fetiche por pessoas com deficiência. Eu não ligo. Se eu quero uma pessoa que me ame, eu quero uma pessoa que me ame; mas se eu quero uma pessoa única e exclusivamente pra transar comigo, eu quero uma pessoa pra transar comigo e que saia da minha casa no dia seguinte. Há um paralelo muito grande entre isso" (Foto: Reprodução/Facebook)

Representatividade: para além do padrão

"Quando a gente olha para a indústria pornográfica, não vê os corpos diversos e plurais. A gente vai ver uma mana padrãozinho, com um cara gostoso e padrãozinho, fazendo coisas mirabolantes. Não é o pornô pra gente, não é o que representa a gente. E quando falo 'a gente', cito mulheres trans, mulheres com deficiência, mulheres que fogem da norma do padrão que a sociedade impõe aos corpos. As pessoas se identificam comigo porque eu falo pra elas que eu estava transando, de verdade, em cima da mesa da cozinha descascando batata. E isso não era fantasia, era o meu corpo torto e aleijado dando e recebendo prazer. Todo corpo é capaz de dar e receber prazer da maneira que quiser, e isso não deve ser algo circense, tipo 'Cirque du Soleil'. Eu não tô falando de performance, tô falando de sensualidade, de olho no olho, de gozar junto. Tô falando de uma pegada mais forte, mais gostosa. Tô falando de transar com a luz acesa. Coisas reais, palpáveis, cotidianas."

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Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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