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Gosto pra caramba do meu pênis, diz Bryanna, "mulher trans não-binária"

Universa

08/05/2019 04h07

A youtuber Bryanna Hugo Nasck, 24 (Foto: Reprodução/Instagram)

"A sociedade está programada para identificar homem ou mulher, as pessoas não conseguem perceber nuances. Há pessoas neutras, e há pessoas que são a mistura de um e de outro. Eu tenho a facilidade de conseguir me sentir confortável no espectro da feminilidade", diz a youtuber Bryanna Hugo Nasck, de 24 anos, que se define como uma mulher trans não-binária.

"Mulher trans não-binária"

Mulher trans não-binária? Sim. O que pode parecer um excesso de informação acaba "bugando" nossos conceitos, afinal, em tese, não-binárias são pessoas que não se sentem pertencentes ao gênero masculino nem ao feminino, certo? Para entender, é preciso ter em mente que a não-binariedade diz respeito à identidade de gênero, ou seja, como a pessoa se sente, independente do gênero em que nasceu, como homem ou mulher. Já a orientação sexual está ligada à atração romântica e sexual, como heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual entre outras.

Há pessoas não-binárias que se colocam sob o guarda-chuva trans, caso de Bryanna. Não-binários podem se sentir entre um gênero e outro, e até mesmo uma combinação dos dois, como ela explica ser seu caso. "Aos 17 anos, enquanto ainda me entendia como gay, não me sentia pertencente ao mundo da mulher, nem ao do homem. Se tivesse algo que me descrevesse, seria a mistura dos dois, só que um pouco mais feminina", esclarece. "Entendo a não-binariedade como a liberdade de você poder construir a sua identidade e a sua vida da forma que te faz bem. Muita gente não sabe o que é isso e sempre preciso dar um cursinho pra explicar, é uma confusão. Então a forma de simplificar isso é acrescentando o termo 'mulher', porque ele já dá todos os sinais de que me vejo no espectro feminino, eu gosto de estereótipos femininos, e obviamente prefiro ser tratada pelos pronomes femininos."

"Tenho 2 metros de altura e acredito que isso iniba alguém de cometer uma violência, mas de certa forma ainda é uma preocupação. Quando eu saio de casa pra jantar com uma pessoa que eu amo, pra ir comprar uma roupa, eu não quero que seja uma militância, não quero que seja uma dificuldade, eu só quero ser respeitada, sabe?!" (Foto: Reprodução/Instagram)

"Não sabe qual pronome usar? Pergunte!"

Fazer o cadastro numa loja de departamentos, abrir a comanda em um bar… Situações cotidianas para mulheres cis (que se identificam com o gênero de nascimento) podem ser verdadeiros suplícios na vida de mulheres trans. "Uma vez fui a uma loja de roupas e a vendedora insistia em me tratar no masculino, apesar de eu ter pedido pra ela não me tratar assim. Na hora de fazer o cadastro, ela queria colocar como masculino. Simplesmente saí da loja. Expliquei que se no cadastro não cabe quem eu realmente sou, então não preciso daquilo. Não dá pra você prever de quem vai vir a ação ignorante. Eu percebo que muitas vezes as pessoas fazem isso não porque têm ódio ou aversão, mas porque são completamente ignorantes e não percebem que o que estão fazendo é errado, e o quanto podem machucar a outra pessoa. Eu sei que é difícil identificar uma pessoa não-binária e identificar como ela quer ser tratada, mas há formas de falar com alguém sem sem usar um pronome. 'Olá, boa tarde! Como vai? Em que posso ajudar?'. Não precisa tratar como 'senhora' ou 'senhor'. Veja como a pessoa se identifica. Uma coisa que é espetacular, não é difícil e não ofende é: se não sabe qual o pronome aquela pessoa usa, pergunte."

Popular nas redes sociais, Bryanna tem mais de 110 mil inscritos em seu canal no YouTube e 20 mil no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram)

Foi a vontade de contar suas histórias e estabelecer conexões interpessoais que fez com que Bryanna estreasse no YouTube, oito anos atrás. No canal com mais de 110 mil inscritos, ela fala sobre feminismo, terapia hormonal, identidade de gênero, solidão, entre outros assuntos ligados à sua realidade. Em um dos vídeos, revela ter sido deixada pelo namorado por ser trans. "Quando a gente tava dentro da casa dele ou da minha casa, tudo fluía tranquilamente. Curtíamos nossos corpos, tudo encaixava. Até que descobriram que ele estava se envolvendo comigo. Alguns amigos dele se reuniram e fizeram, literalmente, um grupo de intervenção. 'O que você tá fazendo da sua vida se envolvendo com travesti?'. E ele, ao invés de mandar as pessoas cuidarem das próprias vidas, simplesmente saiu da minha. Mais complicado que para um casal homossexual, é para a vivência trans, porque muitas vezes a gente não tá se relacionando com uma outra pessoa trans, outra pessoa que entende a nossa realidade; às vezes a gente tá se relacionando com um homem hétero, cis, de classe média, branco, que não tem a mínima noção do que é sofrer preconceito na sociedade, do que é sofrer opressão."

"Eu gosto pra caramba do meu pênis"

Desde que se entendeu trans e não-binária aos 17, Bryanna, que sente atração por todos os gêneros, nunca escondeu sua transexualidade. "Minha atração por homens não me contemplava completamente, também me sentia atraída por mulheres, por pessoas não-binárias, por travestis… Eu me sinto atraída por pessoas que agucem a minha curiosidade com a sua personalidade, com a sua história", entrega. "Sempre cuidei pra me envolver com pessoas que não tivessem problema nenhum com a minha genitália. Homens cisgêneros heterossexuais perguntam 'Como você lida com o seu pênis? Não quer tirar?'. E eu respondo que não, não quero. 'Eu gosto pra caramba, e se você quiser ficar comigo não tem como ignorar ele. Vai ter que usar sim e lembrar que eu tenho que ter tanto prazer quanto você.'"

"Das coisas que eu quero fazer com meu corpo, nenhuma delas envolve a redesignação sexual" (Foto: Reprodução/Instagram)

"Tem meninas trans que têm disforia, não conseguem tocar no próprio pênis, não conseguem ter prazer porque têm uma repulsa em relação àquilo. Mas é importante lembrar que isso não é uma regra. Nem toda pessoa trans tem ódio do seu corpo, não consegue sentir prazer com ele ou não gosta do que vê. Eu me sinto muito confortável. Das coisas que eu quero fazer com meu corpo, nenhuma delas envolve a redesignação sexual", pontua.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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