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Eu, lésbica, e o medo (quase inconfessável) de ser trocada por um homem

Universa

15/05/2019 04h37

Laura Trombeli e Kássia Gonzáles, de Ourinhos, São Paulo, na festa de casamento (Foto: Arquivo Pessoal)

No dia do casamento, Laura e Kássia estavam radiantes. As bodas aconteceram em dezembro de 2018, mas as duas já estavam juntas havia cinco anos. O brilho nos olhos e a felicidade eternizada nos sorrisos contam uma história que teve um final feliz – depois de um começo bem complicado.

"Quando conheci Kássia, ela namorava um cara, mas o relacionamento era mega abusivo. Nos aproximamos, até que rolou o primeiro beijo. Namoramos por dois meses e ela me largou e voltou com o ex, não sabia ao certo o que queria. Eu fiquei muito mal, cheguei a pesar 39 kg, não conseguia comer, fui parar no hospital etc. Ficamos separadas por cinco meses, mas nunca deixamos de nos falar. Ela terminou com ele e foi curtir a vida. Eu também estava curtindo. Quando ela percebeu que estava me perdendo, pediu pra voltar. Voltamos e estamos juntas até hoje. Ela diz que se um dia terminássemos, ficaria com mulheres. Mas eu tenho ciúme dela com homens; com mulheres, não (risos). É bizarro, mas é real", entrega Laura.

"Eu tenho ciúmes dela com homens; com mulheres, não. É bizarro, mas é real", entrega Laura (Foto: Arquivo Pessoal)

O ciúme é mais tangível do que muitas lésbicas gostariam que fosse

O ciúme (quase inconfessável) e que parece "bizarro" para Laura, na verdade é mais tangível do que muitas lésbicas gostariam que fosse. "Sempre tem a história de um homem no passado, incluindo o meu. Nas vezes em que me envolvi com mulheres bissexuais, tive experiências ruins, fui trocada e traída. Sei que isso não tem a ver com orientação e sim com o caráter, mas foi traumático, então procuro não me envolver com bissexuais", conta Raquel Reis, de Boa Vista, Roraima.

Vivielen Moraes, de Santana, no Amapá, se entendia lésbica e sofria com o medo de que a namorada a deixasse por um homem – e não demorou para que o maior de seus pesadelos se tornasse realidade. "Já tive bastante medo de ser trocada por homem. E fui! Aos 18 anos. Sempre namorei garotas bissexuais e, por já ter sofrido por ser trocada, temia que isso sempre acontecesse. Mesmo assim, continuei namorando as bi, até que me descobri bissexual – e não mais lésbica. Sim, isso aconteceu. Entendi que não é porque você tem a possibilidade de se relacionar com ambos os sexos que você vai querer isso o tempo todo. Vai depender do que o corpo e o coração estão querendo. As bi não são bagunça, não!", brinca ela.

"Sou bi e namorei uma lésbica por quatro anos. O medo dela era eu trocá-la por um cara, por sentir falta de transar com um homem. Incluir brinquedos sexuais na nossa relação foi bem complicado. Acho que a insegurança é o maior obstáculo. Ao que parece, na cabeça dela, nós, bissexuais, nunca estamos satisfeitas, ou sempre queremos os dois ao mesmo tempo. Na minha opinião e vivência, ser bissexual é não ligar para o gênero da pessoa e me interessar por ela como um todo, pela vibe, pelas ideias. Em alguns casos, quando digo para mulheres lésbicas que sou bi, elas se revoltam e dizem ter nojo de homens. E quando falo para alguns caras, a primeira frase é 'então você topa ménage?'", comenta a publicitária Bruna Picoli, de Ribeirão Preto, São Paulo.

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"Tive um relacionamento com uma menina bi durante mais de um ano. No começo eu tava de boa, mas depois de um tempo tinha a sensação de que ela queria sair com homem também, e isso foi desgastando o namoro. Ela comentava muito sobre caras que ela conhecia no trabalho e até sobre o ex dela. Isso começou a me deixar com medo. Terminamos e, depois de um tempo, descobri que ela saía com homens mesmo ainda estando comigo. Agora tenho muito receio de me envolver com bi. Hoje ela está com um cara, mas faz o inverso, agora procura mulheres", diz Eliane Alves, de Nova Odessa, São Paulo.

"Há algum tempo eu conheci uma guria, e ela ficava com um cara também. Cheguei a conhecê-lo. Durante um tempo isso não foi um problema, o que começou a incomodar foi que, indiretamente, ela me fazia competir com o cara, praticamente se leiloando. Vinha pra mim e reclamava horrores dele, sabendo que eu gostava dela. Até que eu resolvi que não queria mais ficar nessa situação. Além de me sentir trocada, tive de ficar competindo pela atenção dela com macho. Não sou obrigada né?! A guria com quem eu tô atualmente é bi, mas, diferentemente da outra, sinto reciprocidade e cuidado nas ações dela comigo. A gente tem um relacionamento aberto, mas que, de longe, é o mais tranquilo que já tive. Na verdade é um relacionamento sem nome, com duas pessoas que se gostam e são livres", conta Emilie Boeira, desenhista, de São Paulo.

Antídoto para insegurança

Aos 34 anos de idade e mais da metade desse tempo "entendidíssima" do assunto, eu posso afirmar, com propriedade, que a lésbica que nunca sentiu ciúmes da "consagrada" com homens pode se considerar privilegiada, sim! HAHAHA. Hoje tiro onda com esse tema que já foi bem espinhoso pra mim. Fui traída com homens e doeu, bastante, muito mais do que com mulheres.

Por medo de que a história se repetisse, acabava perseguindo, mesmo que de forma inconsciente, a ideia de ser a melhor mulher – e ao mesmo tempo o melhor homem do mundo. Desnecessário dizer que além de humanamente impossível, era um propósito totalmente descabido. À luz da maturidade (que vem com as experiências, principalmente as ruins), enxerguei que o melhor antídoto para as minhas inseguranças era o meu amor próprio. Isso não significa fazer vista grossa a sentimentos e intuições negativas, mas estabelecer limites para o que é desejável, o que é tolerável, e o que é inadmissível.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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