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Conheça Mariana, dona do maior canal sobre deficiência no Brasil do YouTube

Universa

23/05/2019 04h05

Mariana Torquato, a criadora do maior canal sobre deficiência do Brasil no YouTube (Foto: Caroline Martins/Instagram)

"Nasci sem meu braço e nunca tive colegas sem braço ou com deficiências diferentes da minha nem na infância, nem na adolescência, nem na faculdade. A invisibilidade das pessoas com deficiência é muito grande e eu me incomodava com isso, sempre me incomodei. Com a internet, muitas pessoas começaram a falar sobre suas vivências, seus problemas, seus estigmas e sobre o preconceito que enfrentavam. Vi negros, vi gordos, vi LGBTs e não via a pessoa com deficiência. Buscava isso e só via canais gringos, então quis suprir essa busca que eu tinha por representatividade e não encontrava em lugar nenhum", conta Mariana Torquato, 27, sobre sua motivação para criar o "Vai uma mãozinha aí?", que se tornou o maior canal sobre deficiência do Brasil, com mais de 155 mil seguidores. Dados do IBGE levantados no último Censo, em 2010, apontam que aproximadamente um quarto da população brasileira tem algum tipo de deficiência.

Mariana nasceu sem um dos braços por uma malformação provocada, provavelmente, pela talidomida, um medicamento utilizado como sedativo, dentre outras funcionalidades, cujo uso é proibido no Brasil para mulheres grávidas desde 1997. Mariana nasceu em 1992. "O que aconteceu com o meu braço?", vídeo em que ela relata sua história, é um dos mais populares do canal, com quase um milhão de visualizações. Sem vitimismo e com muito humor, Mariana trata de assuntos delicados, como o bullying e a solidão, até detalhes de sua rotina, mostrando, por exemplo, como amarra cadarços, abre e fecha zíperes, tinge os cabelos e até faz as unhas – tudo com uma mão só. "Tem várias coisas que eu faço melhor que pessoas que têm duas mãos, porque às vezes pessoas que têm duas mãos tem uma preguiça tão grande que não as usam direito. Eu nunca pude ser preguiçosa, sempre tive que pensar fora da caixa e achar um jeito de adaptar as coisas. Não costumo me contentar com o fracasso. Se alguma coisa me incomoda eu vou tentando até conseguir", orgulha-se.

"Existe uma pressão social pra você se colocar pra baixo quando você tem uma deficiência. Pra você se invisibilizar, se esconder, e é essa questão que me faz colocar a cara a tapa"  (Foto: Reprodução/Instagram)

"Você tem um rosto muito lindo, pena que não tem um braço"

Quem vê o jeito leve e desembaraçado da catarinense, formada em administração de empresas, não imagina que a formação de uma imagem positiva sobre si mesma levou tempo. "A construção da minha autoestima foi tardia, com 20, 21 anos. Antes eu me colocava pra baixo. As pessoas falavam 'você tem um rosto muito lindo, pena que não tem um braço'. Ouvi isso a minha vida inteira. Como eu sou de Florianópolis e as meninas aqui são muito bonitas, isso não ajudava. Tinha essa questão dos olhares de pena, de nojo, estranhamento… Antes de criar o canal, eu não colocava meu bracinho pra fora. Usava jaqueta, escondia, porque eu não queria ser notada. Depois percebi que não adiantava, que eu tenho mesmo é que ser notada", expõe a influencer.

"Minha cara quando escuto alguém usando a expressão 'João sem braço'", legendou Mariana no Instagram, onde é seguida por mais de 42 mil pessoas (Foto: Reprodução/Instagram)

Capacitismo: "A gente é tratado ou como super herói ou como um coitadinho"

"Uma coisa que acontece todo dia é as pessoas me chamarem de 'deficiente', 'especial', 'portadora de necessidade especial', isso e aquilo. A nomenclatura é muito mal divulgada pelo fato de o assunto deficiência ainda ser pouco discutido. Me incomoda as pessoas acharem que eu sou uma puta guerreira, tá ligado?! 'Nossa, que guerreira! Você é uma inspiração! Tanta gente aí que tem braço e perna e reclama da vida e você não.' Não é bem assim. Isso é uma das faces do capacitismo, que é o preconceito contra as pessoas com deficiência. A gente é tratado ou como super herói ou como um coitadinho que precisa de doação, de ajuda, da benevolência das pessoas. A gente não precisa de ajuda, a gente precisa de acesso, de inclusão, acessibilidade, e a gente só consegue falando sobre isso. Muitas vezes as pessoas vão falar sobre deficiência e trazem um especialista, um médico, um psicólogo, um pedagogo, e não trazem a pessoa com deficiência pra falar da sua própria vivência! Vai construir uma rampa pra cadeirante e nunca chama um cadeirante pra ver se a rampa tá boa, sabe?! O que mais machuca a pessoa com deficiência é que o acesso negado pra gente é visto como uma coisa normal."

"'Defiça' é um apelido carinhoso que eu criei, porque 'pessoa com deficiência' é uma expressão grande, e que é o termo correto, porque a pessoa vem antes da deficiência" (Foto: Reprodução/Instagram)

"Não existe uma área da minha vida que não seja afetada pela minha deficiência. Eu sempre sou afetada pela reação que as pessoas têm ao meu corpo. Já tive que lidar com gente que saiu, que não quis mais quando percebeu que eu não tinha um braço, gente que fica assustadíssima. Você vê o olhar da pessoa mudando a partir do momento em que ela te vê como uma pessoa inferior, uma pessoa incapaz, uma pessoa que não é o bastante pra ela namorar. As pessoas põem a deficiência na frente da pessoa sem perceber que somos pessoas, temos personalidades, conhecimentos, charmes… A minha deficiência é simplesmente um plano secundário", pontua.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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