Topo
Blog da Morango

Blog da Morango

Categorias

Histórico

Mulher trans, ela criou uma página de empoderamento transcentrado

Universa

23/10/2019 04h00

Lorena Landim, 23, social media, criadora da página "Trava de Segurança" (Foto: Reprodução/Instagram)

Foi na pré-adolescência, aos 13 anos, que Lorena Landim, hoje com 23, ensaiou os primeiros passos rumo à descoberta de si mesma. Ensaiou, literalmente. No teatro, ela deu vida a personagens femininas; na escola, do ensino fundamental ao médio, explorou seu lado mais excêntrico usando saltos e perucas estrambólicas testando, intuitivamente, o impacto que seu comportamento gerava ao redor. "Eu era uma figura, parecia que não era real, era como se eu fosse um grande personagem", conta ela, que divertia os colegas performando Lady Gaga.

"Essas máscaras que a gente usa, principalmente cômicas, de fazer piada com tudo, de ser engraçado e legal com todo mundo, tudo isso faz com que a gente crie redes de proteção. Eu criei uma rede de proteção na escola onde estudei, mesmo sem saber o que tava acontecendo direito, mesmo que os meus planos e as minhas expectativas não fossem sobre ser mulher, mas talvez só sobre ser um menino gay ali", revela Lorena, que diz se sentir privilegiada por nunca ter sofrido violência física por ser trans.

'Você nasceu homem? Mentira!'

"As pessoas esperam que eu já tenha apanhado, perdido o emprego ou perdido relacionamentos por ser trans, mas as maiores e mais desconfortáveis transfobias que já sofri na minha vida são as transfobias ditas 'calorosas', das pessoas não me reconhecerem enquanto mulher em todos os espaços. 'Você é muito linda pra ser trans!', 'Nunca ia imaginar que você era trans!', 'Você nasceu homem? Mentira!', são algumas das transfobias cotidianas que nos alfinetam", expõe.

Publicação da página "Trava de Segurança", administrada por Lorena (Imagem: Reprodução/Instagram)

"Os homens acham que sou um convite ambulante pra sexo"

"Embora seja trans, eu tenho uma 'passabilidade', as pessoas me leem muito mais enquanto mulher cis do que como mulher trans, principalmente agora que eu retifiquei meus documentos, mas ainda assim eu sofro. O machismo me afeta muito mais do que a transfobia. Desde o começo da minha transição eu namoro a mesma pessoa, e ele já passou por poucas e boas comigo. Pelas pessoas me identificarem enquanto trans, elas acham que eu sou um monumento e que posso ser assediada em qualquer lugar, em qualquer momento. Os homens cis* acham que sou um convite ambulante pra sexo."

*Cis ou cisgênero é a pessoa que vivencia e se identifica com a identidade de gênero que lhe foi atribuída no nascimento (masculina ou feminina)

Lorena e o namorado, Diogo, estão juntos há 2 anos e meio (Foto: Reprodução/Instagram)

Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo: um assassinato a cada dois dias

"A gente tá no Brasil, no país que mais mata pessoas trans, mas essas pessoas que estão sendo assassinadas são mulheres trans negras, em situação de vulnerabilidade, à margem da sociedade, na prostituição, dentro do carro do 'pai de família', ocupando as esquinas da cidade. É um perfil bem específico. E como 90% das pessoas trans estão na prostituição, é um grande número de pessoas em situação de vulnerabilidade. Eu faço parte desses 10% que não está na prostituição, que não precisa estar na rua, mas essa violência respinga em mim. Eu posso estar numa balada, algum cara tentar me beijar à força, eu dizer 'não', ele perceber que sou trans e acabar comigo. É uma situação muito provável de acontecer", desabafa.

Os números são assustadores: 41% de todos os assassinatos de pessoas trans no mundo aconteceram no Brasil. Foram 179 homicídios em 2017 e 163 em 2018. A média é de uma morte violenta a cada dois dias. Os dados foram coletados e publicados pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), que salienta que "não há dados oficiais sobre os assassinatos de travestis e transexuais de todo o Brasil, visto que o governo não se preocupa com essas mortes. O levantamento é feito a partir de pesquisa em matérias e mídias vinculadas na internet. A pessoa é assassinada porque além de romper com os padrões impostos, faz isso publicamente", explica a associação, em nota.

"Trava de Segurança"

Para expandir o debate e dar voz a outras pessoas trans, Lorena criou o "Trava de Segurança", uma página que viralizou no Instagram e em menos de um mês já arrebatou mais de 1.600 seguidores. "Eu sei que por estar numa posição mais privilegiada socialmente não apanho, mas alguém lá embaixo apanha. O que eu tento com a página é fazer com que esse negócio de 'passabilidade', de quanto mais cis você parecer, mais aceitável, seja quebrado. O traveco é desde a mulher trans mais passável do mundo até a mulher trans que luta pelo fim dos pelos da barba – ou não – porque isso também a gente tem que deixar claro que é uma opção dela."

"Muitas pessoas confundem mulheres trans e/ou pessoas não-binárias com a expressão artística da drag queen, mas ó, são coisas diferentes! Seja como a Ana e respeite de verdade todas as formas de ser", propõe a página de empoderamento transcentrado (Imagem: Reprodução/Instagram)

"Na 'Trava de Segurança' eu tô falando diretamente com as pessoas trans. Quem for impactado pela página é só respingo do grande trabalho que a gente tem pra fazer. Como já tô falando pra uma população que abre páginas da internet e nunca lê notícias sobre ela que não sejam sobre mortes, assassinatos e suicídios, acho que a nossa linguagem pode ser um pouco mais amigável. E a 'Trava' surge com uma estética muito amigável e didática, que é o mais importante. A gente consegue educar uma população transfóbica com arte", acredita Lorena, que é social media e designer.

Veja também:

Gosto pra caramba do meu pênis, diz Bryanna, "mulher trans não-binária"

Brenda, um cara trans fora da curva: "Estou hétero, mas não sei amanhã"

Você sabe se relacionar, sem preconceito, com pessoas trans?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

Blog da Morango