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Quem é a primeira drag violinista do Brasil e por que ela está bombando

Universa

18/12/2019 04h00

Joshua, a primeira drag violinista do Brasil, é fã de Pabllo Vittar (Foto: Reprodução/Instagram)

No início do mês, Pabllo Vittar lançou "Amor de Que", um arrocha pop daqueles gostosinhos de dançar na balada. Em pouco mais de duas semanas no YouTube, o clipe acumula mais de 14 milhões de visualizações. O sucesso estrondoso de Pabllo, uma das drag queens mais influentes do planeta (para se ter uma ideia, só no Instagram ela arrebata quase 10 milhões de fãs), inspira outros jovens mundo afora e, na última semana, trouxe Joshua aos holofotes.

Só no Twitter, onde tem 1.500 seguidores, Joshua teve 175 mil visualizações em apenas 6 dias (Imagem: Reprodução/Twitter)

Musicista desde os 9 anos de idade

Joshua é o nome artístico de Josué Santos, de 20 anos, que nasceu e cresceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Numa fusão do clássico com o contemporâneo, o artista conquistou as redes e milhares de seguidores tocando, no violino, o hit mais recente de Pabllo. Musicista desde os 9 de idade, Joshua é a primeira drag queen violinista do Brasil – um feito tão inédito quanto desafiador.

"Violino sempre me chamou a atenção", conta Josué, que aos 15 foi presenteado com seu primeiro instrumento: "quem me deu foi o meu pai, com bastante dificuldade. Fiquei super feliz, porque até então eu só usava o do curso.". Na mesma época, Josué, que é gay, se assumiu para a família. "Não podia sair pra rua de shortinho para que os vizinhos não vissem. Não podia passar uma base no meu rosto, nem pintar as sobrancelhas", recorda ele, sobre um dos momentos mais difíceis de sua vida.

"Meus pais não entendem a minha arte, a minha cultura e, principalmente, a minha orientação sexual"

"No dia em que contei que era gay, lembro que o meu pai estava jantando e a minha mãe estava na sala. Meu pai ficou decepcionado, parou de jantar e foi pra rua. Minha mãe chorou. Todo mundo chorou. Meu irmão já sabia, mas ele é 'de boa', sempre me apoiou. Quando me assumi, achei que iria sofrer demais e realmente sofro, até hoje, porque eles não entendem a minha arte, a minha cultura e, principalmente, a minha orientação sexual", revela. Da mãe, Josué diz ter recebido acolhida; do pai, não. "Ele queria me forçar a servir a Deus. Deus, pra mim, é amor. A Igreja não me representa. Me afastei da Igreja aos 16 porque via que não me encaixava ali. Estava cansado de ver as pessoas me julgando."

"Minha primeira montação foi aos 18 anos. Me achava 'a' modelo, a Naomi Campbell", diz Joshua (Foto: Reprodução/Instagram)

A Joshua

Joshua, a drag queen criada por Josué, surgiu logo depois desse período em que ele se abriu para a família. "Me apaixonei por maquiagens, roupas, moda, tudo do universo feminino. Aprendi todas as técnicas na internet, no YouTube. Minha primeira 'montação' (produção queen) foi aos 18 anos. Não me achava feminina no começo, mas fui me apaixonando cada vez mais pelo mundo feminino. Foi daí que surgiu a ideia de tocar montado, para que as pessoas vissem arte e cultura drag. Deu certo", comemora Joshua, que toca de Beyoncé à funk carioca no violino.

Um abismo entre o mundo real e o virtual

O sucesso nas redes sociais, onde o trabalho como drag violinista conquista o público (Joshua tem mais de 22 mil seguidores no Instagram), contrasta com a realidade dura e indigesta do Brasil, país que mais mata LGBTs no mundo: 1 morte a cada 23 horas, em média. "Eu queria que a minha drag tocasse na rua, mas como o mundo é perigoso, homofóbico, eu tenho medo. Tenho medo de sofrer discriminação, apanhar por estar vestido de mulher", explica Josué, sobre nunca ter se apresentado nas ruas como Joshua.

"Queria que a minha drag tocasse na rua, mas como o mundo é perigoso, homofóbico, eu tenho medo", diz Josué (Foto: Reprodução/Instagram)

"Participo de grupos de músicos que tocam em casamentos, cerimônias e festas de 15 anos. Trabalho com isso. Quem coordena esses grupos de músicos, que é uma pessoa que eu tenho como meu pai de consideração, me viu tocando num túnel, como Josué, e me contratou. Ele não é homofóbico, mas não me deixa ir de drag para os eventos porque as pessoas ficariam 'Ai, nossa! O que é aquilo tocando violino?!'. Mas eu sei que um dia as pessoas que não acreditaram no meu talento e na minha arte vão estar lá no palco, festejando junto comigo, me aplaudindo. Eu torço muito pra esse dia acontecer", confidencia, com a voz embargada.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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