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O amor, dentre tantas outras formas, também é um bilhetinho escrito à mão

Universa

08/04/2020 18h00

O primeiro bilhetinho que ela escreveu, na quarentena (Foto: Arquivo Pessoal)

Essa é umas das histórias mais difíceis de contar aqui. Porque é a minha. E eu não sou de me desnudar assim.

Pra mim, tirar a roupa sempre foi muito mais fácil que abrir o coração. Será que as coisas deram certo até agora por isso? Ou deram muito errado, mas Deus, em sua infinita bondade, me deu incontáveis segundas chances? Não sei.

Nem lembro direito da última vez em que fui genuinamente fofa ao invés de terceirizar isso. Faz uns 84 anos que não escrevo um recadinho carinhoso e deixo num post-it ou revelo umas fotos românticas e penduro pela casa.

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Me habituei ao jeito mais prático de fazer as coisas. Prático, pra não dizer frio e distante. É muito mais fácil dar dois toques e encomendar umas flores e uns chocolates que depois serão entregues com um bilhete escrito por outra pessoa.

A minha letra é muito feia, aliás. Parece de criança que está sendo alfabetizada. Mas isso não é um problema mais. Já foi, nos tempos de escola. Quando descobri que muitas amigas também tinham a letrinha feia, senti uma paz interior tão grande que me acomodei. Não só me acomodei como um dia tive vontade de expor a minha grafia rústica na internet. Criei o Tô Na Porta, um perfil no Instagram que é pura dor de cotovelo e putaria. Se isso é a minha cara eu não sei mais.

Uma das minhas publicações no "Tô Na Porta"  (Imagem: Reprodução/Instagram)

Bauman, corre aqui!

Nos últimos sete anos casei, descasei, e então decidi passar uns meses em absoluto celibato. Depois vivi um relacionamento abusivo e alguns namoros que não duraram quase nada. Alô, Bauman, corre aqui!

Bem, a gente sempre pode atribuir alguns fracassos pessoais à modernidade líquida e lavar as mãos (no sentido conotativo e, dado o momento pandêmico, no denotativo também) ou tentar assumir o controle e provar o contrário. Mas que contrário? E que controle?

Conheci a minha namorada semanas antes da quarentena. Ela mora em São Paulo; eu, em Santa Catarina. No primeiro encontro, enquanto bebíamos vinho, planejamos uma viagem à Itália. Não dava pra imaginar que em pouquíssimo tempo o mundo estaria de cabeça pra baixo.

Antes da pandemia a gente só tinha foto na praia (Foto: Arquivo Pessoal)

No fim de semana seguinte nos vimos de novo. E de novo. E de novo… É fácil estar com o humor e a depilação em dia aos sábados e domingos. E conversar amenidades. E rir de memes… Essas coisas todas que ficam na superfície.

Num piscar de olhos o coronavírus, que parecia distante e sob controle, passou a ser uma ameaça real e próxima. E a vida como a gente conhecia nunca mais seria a mesma.

Tô extremamente sensível, tenho chorado por qualquer coisinha (e não sou assim). 

Com esse momento, pesado demais, veio uma necessidade imensa de me desfazer de algumas bagagens. E de falar sobre isso. Passei tanto tempo buscando respostas para as experiências ruins do passado que perdi uma parte de mim por lá.

Sexo a gente encontra em qualquer esquina; amor, não. E eu, que me achava autossuficiente demais, tava precisando de amor e não sabia. Descobri só agora, nessa quarentena que estamos passando juntas.

Amor, dentre tantas outras formas, também é um bilhetinho escrito à mão pra explicar uma ausência breve. Ele tá nos detalhes.

Quarentena dia 1.469: agora eu tenho um motivo pra gostar do Corinthians  (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

Blog da Morango