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“Ciúme era o vilão da minha vida”: eles contam por que são não-monogâmicos

Universa

08/07/2020 04h00

"Entendi que posso amar e ser amada por diversas pessoas e suas individualidades e, assim, a solidão da mulher negra vem sendo trabalhada dentro do meu universo", abre Simone Bispo, 32, bissexual (Foto: Reprodução/Instagram)

Mesmo que você não tenha um interesse particular no assunto (nem uma curiosidadezinha?), é quase impossível que nunca tenha lido ou ouvido falar da não-monogamia, um tema cada vez mais recorrente, principalmente nas redes sociais.

Criado há apenas quatro meses, um dos perfis mais completos, o "Não Mono em Foco", já arrebatou mais de 4.000 seguidores em diferentes plataformas. "A não-monogamia não é apenas um termo guarda-chuva para modelos relacionais que fogem à logica da norma monogâmica, mas também é um posicionamento político", explicam os criadores do "NM em Foco" Simone Bispo, Nana Miranda e Newton Júnior. Todos não-monogâmicos.

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Ciúme x não-monogamia

"Eu tenho 32 anos, mas a questão do ciúme sempre foi o grande impeditivo pra eu me enxergar como uma pessoa da não-monogamia. Eu era uma adolescente que já tinha atitudes não-monogâmicas, mas o ciúme era o grande vilão da minha vida. Eu entendia que não poderia viver nada desse tipo, não-mono, por causa do ciúme, que era enxergado como algo positivo, uma demonstração de que você gosta. O ciúme nada mais é do que um conjunto de outros sentimentos que a gente dá o nome de ciúme pra não ter que sentar e refletir sobre o que realmente é", expõe a publicitária Simone Bispo, 32, que diz ainda estar em um processo de desconstrução: "É uma tarefa que a gente vai exercendo todos os dias".

Não-monogamia: uma identidade política

"Pra mim, as coisas aconteceram em dois momentos. Em 2017, comecei a ter contato com postagens e textos sobre relações abertas e trisais. Eu estava com 22 anos e em um namoro fechado. Nós começamos a falar sobre isso e a conversar com amigos também. Decidimos abrir a relação no Carnaval de 2018 e fomos resolvendo questões, acordos e lidando com os sentimentos conflitantes. No ano passado, participei da criação do grupo 'Problemas de Não-Mono', o PNM, no Facebook, e aí tive meu segundo momento, que foi quando eu passei a entender a não-monogamia como algo pra além dos meus relacionamentos, como uma identidade política que se entrelaça a outras lutas minhas, como o antirracismo, o antimachismo, o anticapitalismo e a antiLGBTfobia", conta o músico e pesquisador Newton Júnior, 25.

"O aprofundamento nessas questões se tornaram, para além da dinâmica do relacionamento, uma posição política antinorma. E sendo assim, da necessidade de falar pra além da voz branca, padrão, do senso comum", expõe Newton Júnior, 25, gay (Foto: Reprodução/Instagram)

A origem da monogamia

A comunicadora social Nana Miranda, 29, explica que "a monogamia é uma estrutura social usada como instrumento de controle social e sexual feminino com origens na noção de propriedade privada e patriarcado".

"O poder e as posses de cada núcleo familiar se concentraram nas mãos do patriarca da família, e a garantia e manutenção dessas posses na linhagem só era possível se sua prole fosse reconhecida. A liberdade sexual da mulher foi restringida na instituição casamento. No contexto do capitalismo, foi necessário que a mulher ficasse em casa para produção da força de trabalho (procriação e cuidados com filhos). Essa divisão sexual do trabalho inserida na divisão sexual da sociedade possui uma evidente articulação entre o trabalho das mulheres de produção e reprodução", expõe Nana, que é bissexual e afirma que as pessoas LGBTs também assimilam esse padrão ao longo da história com a ajuda do mito do amor romântico.

"Eu sentia que precisava exercer minha liberdade como mulher de forma mais plena, então comecei a refletir sobre amor romântico e como isso impactava na forma de me relacionar com o mundo, não só afetivamente", diz Nana Miranda, 29, bissexual (Foto: Reprodução/Instagram)

"Monogamia com glitter"

Pode ser tênue a linha que separa a monogamia da não-monogamia. Se um casal pretende viver um relacionamento aberto, por exemplo, mas com acordos que estabeleçam uma hierarquia, onde a relação principal seja o foco, para Nana isso não é não-monogamia, apenas "monogamia com glitter".

"Pessoas autônomas não nascem grudadas umas nas outras, então não há motivo pra existir uma limitação nesse sentido. Se existe uma entidade casal, é porque a monogamia não foi questionada de forma séria e profunda. Um relacionamento aberto em que existe um acordo limitante, em que existe um casal que é o principal, isso ainda é uma monogamia, porém com glitter. Uma monogamia, só que com alguns benefícios", reflete Nana, implacável.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!