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Como tirar sua carteirinha de sapatão

Universa

19/08/2020 04h00

O casal podcaster Duda (à esquerda) e Mareu (Foto: Reprodução/Instagram)

Como tirar sua carteirinha de sapatão? Eu adoraria responder que o processo é simples, como um teste vocacional, com um levantamento de aptidões e interesses, mas não é.

Também não é como na autoescola, onde depois de umas aulas teóricas, outras práticas e alguns exames, a habilitação chega linda num envelopinho em casa.

Identidade

Neste, que é o Mês da Visibilidade Lésbica, brincar sobre a existência de uma carteirinha de sapatão é só um jeito leve de abordar um assunto tão denso.

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Além de questionamentos e conflitos internos, muitas vezes enfrentamos rejeição, lesbofobia e violência no seio familiar, na sociedade e até dentro da própria comunidade LGBTQIA+.

Afinal, quem pode determinar a orientação sexual de uma mulher? Só ela mesma. E assumir essa identidade, para além de uma escolha pessoal, é um ato revolucionário.

Parachoque de Monstro

Há exatamente um ano, inspiradas pelo Mês da Visibilidade, Nay, Jaque, Mareu e Duda estrearam o Parachoque de Monstro, um podcast que põe a vivência lésbica em pauta.

De lá pra cá foram 40 programas, dezenas de milhares de plays e muita troca de informações e experiências. "Mais do que um projeto pessoal, se tornou uma rede de apoio pra muita gente. E por ter consciência dessa responsabilidade, o podcast só me fez melhorar como pessoa e como sapatão. Tive que começar a me informar muito mais, já que entendi que a minha voz – juntamente com as das meninas – tinha relevância na vida de outras pessoas", conta Duda Zacaro, 29, de São Paulo.

Duda, sobre o Mês da Visibilidade Lésbica: "Temos sempre que lembrar das mulheres que lutaram pra estarmos aqui onde estamos, além de ser uma celebração de quem eu sou, de quem eu amo, da existência da minha família" (Foto: Reprodução/Instagram)

Resistência

"O Mês da Visibilidade Lésbica é mais um mês em que mostramos que existimos, resistimos, amamos e lutamos. É a tentativa de uma reparação social com as sapatonas que são excluídas e invisibilizadas o ano todo. Para além do Mês da Visibilidade, todo dia é uma resistência, um ato político", observa a podcaster e produtora executiva de moda Nayda Rodrigues, de 25 anos, a Nay, que se entendeu lésbica aos 16.

"Eu sentia uma inquietação meio inexplicável, mas nunca quis ouvir essa voz querendo me dizer que tava tudo bem não seguir a norma. Então, aos 18, quando saí de casa, mudei de cidade e entrei na faculdade, pude me entender como mulher lésbica e enxergar um mundo totalmente diferente do que eu conhecia", completa.

Jaque (à esquerda) e Nay se casaram no ano passado, na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo (Foto: Reprodução/Instagram)

Podcaster e fotógrafa, Jaqueline Santos, 29, a Jaque, conta que foi "expulsa do armário" na adolescência, quando a mãe da garota com quem ela se relacionava descobriu o namoro.

"Comecei a me identificar como bissexual aos 15 anos. Na verdade sabia que não era isso, mas ainda era bastante insegura e praticamente sem referências de mulheres lésbicas, então me identificava como bi. Tive um namoro na escola e a mãe dessa garota descobriu e ligou pra minha mãe. Foi bem caótico e traumático. Mesmo já 'esperando', minha mãe ficou super chateada. Ainda assim, 'aproveitei' a oportunidade e a partir daí me reconheci e identifiquei como mulher lésbica, aos poucos, em todos os espaços que ocupei e ocupo. São muitas lutas e novas construções que trazem novas identificações e entendimentos ao longo da nossa jornada", expõe Jaque.

Jaque e Nay se conheceram há oito anos, na faculdade de Fotografia (hmm parece que temos um clichê sapatônico aqui) (Foto: Reprodução/Instagram)

A estilista Mareu Ayres, 26, e a designer de produto Duda Zacaro, 29, também se entenderam lésbicas na adolescência. Juntas há seis anos, elas se conheceram no Brenda, um aplicativo exclusivo para mulheres que beijam mulheres (que fez muito sucesso, mas não existe mais).

Entre coincidências e clichês, elas transformaram, com humor, experiências que já foram bem dolorosas.

Ressignificar

"Mesmo antes de me descobrir, já usavam a palavra 'sapatão' de uma forma pejorativa pra me provocar ou me ofender, mas só fui me entender como lésbica aos 18 anos. A partir daí, ressignifiquei a palavra sapatona, transformando-a em bandeira", diz Duda.

Para Mareu, "entender o que é ser lésbica é simples: Basta ser uma mulher e gostar de outra mulher. Sendo assim, uma mulher que fica com homens cis ou trans pode ser bissexual, pansexual, mas não lésbica. E uma mulher que fica apenas com mulheres, sejam elas cis ou trans, é lésbica."

E finaliza, cirúrgica: "Ninguém pode apontar o dedo e querer 'medir' quem é mais ou menos sapatão".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!