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“Nós, pessoas trans, precisamos dos nossos corpos na tela”, declara atriz

Universa

09/09/2020 04h00

A atriz Anne Mota, protagonista do filme "Alice Júnior" (Foto: Reprodução/Instagram)

Quando era adolescente, Anne Mota, 22, sonhava em ser modelo de passarela. "Como as Angels da Victoria´s Secret", recorda.

Aos 17, entretanto, ao procurar uma agência, descobriu que não tinha altura suficiente para a carreira: seus 1,68m estavam abaixo da medida mínima exigida para mulheres, que é de 1,75m. "Disseram que eu não tinha altura pra ser modelo, mas que eu seria uma ótima atriz." 

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Começo no YouTube

Com o feedback da agência em mente, Anne criou um canal no YouTube, o Transtornada, para se expressar e militar pela causa trans. Pouco tempo depois ela, que é de Recife, soube de uma seleção para atrizes trans em Curitiba, a mais de 3 mil quilômetros de distância, e decidiu tentar.

"Se interessaram pelo meu perfil, começaram um contato via e-mail, depois por Skype e então compraram minha passagem para Curitiba, pra fazer um teste lá. Após duas semanas bem intensas, fui a escolhida para interpretar Alice Júnior", conta a protagonista.

Cartaz de "Alice Júnior" (Imagem: Reprodução/Instagram)

"Alice Júnior"

O longa traz a história de Alice Júnior, uma adolescente trans que é youtuber e tem a vida colocada de cabeça para baixo quando se muda de Recife para uma cidade no interior do Paraná. Lembra a saga da própria Anne? Bastante. E as semelhanças não são meras coincidências.

Cena de "Alice Júnior" (Imagem: Reprodução/Instagram)

"Diversas falas minhas foram parar no filme"

"Me tornei também produtora associada do filme, porque eles necessitavam da minha vivência pra história ficar um pouco mais real. Diversas falas minhas, de entrevistas que eles fizeram comigo, foram parar no filme. Algumas vivências, também. Enquanto a gente fazia as leituras de roteiro, eu fazia minhas observações. Pelo roteiro ter sido escrito por um homem cisgênero (pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento), faltava um pouco da pitadinha trans", revela a atriz, sobre o roteiro de Luiz Bertazzo.

Numa dessas cenas, por exemplo, um garoto, amigo de Alice, diz: "'você nem parece ser trans', que foi uma coisa que já aconteceu muito comigo. E a correção que eu fiz, e que serviu como resposta da Alice pro garoto é 'o que é parecer ser trans?'. Eu sou mulher, independente de qualquer coisa ou de qualquer aspecto de beleza física. Eu sou mulher e ponto. Quando você diz 'você nem parece ser trans' é como se tivesse colocando ser trans como sinônimo de algo feio", explica.

Aos 12: "Mãe, eu sou trans"

Anne se entendeu trans aos 12 anos de idade, após assistir ao documentário "My Secret Self" (Meu Eu Secreto), que traz as histórias de algumas crianças trans.

"Depois de achar esse documentário eu fazia anotações, pesquisava a vida dessas crianças. Era uma coisa bem louca. Depois de um mês, resolvi mostrar esse documentário pra minha mãe. Me reuni com ela, no quarto dela, mostrei o documentário e falei: 'mãe, eu sou trans'. Ali eu já tinha uma concepção maior do que era ser trans, já existia um termo no qual eu me sentia representada."

Anne lembra que o fato de ter outra pessoa LGBT na família, um tio, que é gay, tornou as coisas mais fáceis. "Minha mãe já pensava que eu seria uma criança viada, mas não foi bem isso", brinca.

Com o prêmio de melhor atriz por Alice Júnior, concedido pelo Festival Mix Brasil de Cinema (Foto: Reprodução/Instagram)

Liberdade artística x representatividade

Sobre o fato de ser uma mulher trans interpretando uma personagem trans, um tema ainda polêmico no meio artístico, Anne dispara: "Acho que assim como o blackface tem o contexto histórico, que diz que pessoas negras são incapazes de se representarem, de atuarem, o transfake diz a mesma coisa. E é ainda mais drástico quando um homem cisgênero interpreta uma mulher trans. É transfóbica a ideia de que a mulher trans é a caricatura de uma mulher ou é a representação de um gay afeminado. Nós somos mulheres e temos nossa própria identidade, a identidade de mulheres trans.".

E completa: "A gente precisa que essa liberdade artística pare um pouco pra pensar que nós, pessoas trans, precisamos dos nossos corpos presentes na tela. Enquanto nossos corpos ficarem sendo representados por pessoas cisgêneras, nossa presença na sociedade não vai ser naturalizada, não vai ser humanizada. E quando nosso corpo está presente vai mostrar pra sociedade que, sim, pessoas trans existem, resistem, estão presentes e são capazes. O impacto de uma pessoa trans jovem vendo uma pessoa trans adulta ali na tela é muito forte."

Claquete de "Alice Júnior" com homenagem à protagonista: Anne celebrou o aniversário de 19 anos durante as gravações do filme, em 2017 (Foto: Reprodução/Instagram)

Estreia nacional

Além de exibições em cinemas drive-in de São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Curitiba, o longa também poderá ser visto a partir do dia 11 deste mês nas plataformas digitais Now, Vivo Play, Oi Play, Youtube Looke, iTtunes e Google Play.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!