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E se a vida te pedisse limões?

Universa

17/08/2018 04h00

(iStock)

Quantas vezes você já ouviu aquela frase "se a vida te der limões, faça uma limonada"? Os mais animados – e eu estou nessa categoria – costumam dizer que adicionariam pinga e gelo e fariam uma caipirinha. Acontece que a vida não sai por aí toda saltitante distribuindo limões para sucos e drinks. A vida me pediu limões. Quatro. Murchos, levemente amarelados.

Os quatro limões

– Com licença, você poderia comprar esses limões pra mim? – pediu, com seus 11 ou 12 anos, um metro e meio de comprimento e olhinhos de jabuticaba doce.

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– Mas já estão meio passados, o que pretende fazer com eles? – redargui, enquanto esperava minha vez no caixa do supermercado.
– Trabalhar – e apontou na direção do cruzamento onde meninos fazem malabarismos com frutas e bolinhas. Um lugar pelo qual já passei dezenas, quiçá centenas de vezes, e em raras ,colaborei com alguns caraminguás.

Assenti e coloquei os limões junto com as minhas compras, cheias de supérfluos. Enquanto isso, um fiscal do estabelecimento se aproximou com seu walkie-talkie e seus quase dois metros de altura, e esbravejou com o pequeno, dizendo que ali não era uma casa de caridade e que ele não deveria voltar mais.

– O menino não fez nada de errado! Eu vou pagar pelos limões dele! – intervi, sem nunca ter passado por uma situação semelhante. Senti medo e aflição, como se eu fosse o próprio garoto e tivesse cometido algum delito. Mantive a postura firme e ereta, apesar da bambeza que me deu nas pernas.

A caixa, com um olhar enternecido, cúmplice, comentou, quando o segurança foi embora: "qual o problema, né?! Deixa o menino…". Aconteceu no domingo passado, Dia dos Pais. Corri os olhos pelas minhas compras e fitei a criança, que, com as mãozinhas para trás, esperava por seus limões enquanto prestava atenção em outro rapaz a poucos metros de nós. O jovem, que aparentava ter uns 16 anos, possivelmente seu irmão ou vizinho, era vigiado de perto por dois seguranças enquanto escolhia laranjas.

Tempos amargos

Cinco minutos passando as compras no caixa nunca foram tão longos. Lembrei de uma vez em que eu tinha a mesma idade, 11 ou 12, e vivia tempos difíceis. Num domingo de Páscoa, sem ter ganhado chocolates, tentei comprar fiado no bar da esquina alguns ovinhos daqueles quem têm o tamanho de uma moeda e gosto de vela. Apesar de me conhecer da vizinhança – e porque eu estudava na mesma sala que seu filho –, o dono, seu Assis, se recusou a pendurar os chocolatinhos pra mim. Voltei pra casa soluçando e tentando secar umas lágrimas teimosas.

– Escolhe um chocolate pra você – eu disse para o menino, que demorou dois segundos para pegar um tubinho de pastilhas coloridas de chocolate.
– Pode ser esse?
– Pode, sim.

Falta trabalho para 27,6 milhões de pessoas no Brasil, segundo o IBGE, e é muito provável que os pais desse pequeno façam parte dessa lamentável estatística. Ali, numa região nobre da zona oeste de São Paulo, num cruzamento circundado por um shopping, um supermercado e uma grande academia, ele tenta entreter e conquistar uns trocados de quem, de carro, está a caminho desses bunkers contemporâneos – refúgios bem iluminados, repletos de câmeras e seguranças, com pisos e vitrines impecavelmente limpos, onde a realidade parece ser bem mais agradável do que de fato é. Estamos, todos, fazendo malabarismos.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!