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“Eu não tenho mais amor pela sua pessoa”, disse ela, depois de 28 anos

Universa

06/11/2019 04h00

(Foto: Getty Images)

Chovia em São Paulo, onde o céu, melancólico, é também imprevisível. Só olhando pra cima nunca dá pra saber se é melhor esperar ou correr pra tentar chegar em casa antes da cidade ficar submersa. No shopping, preferi pegar um táxi enquanto havia alguns disponíveis. Nessas horas – e já passava das cinco da tarde – é preciso pensar rápido.

Depois do "boa tarde, tudo bem?" prossegui com um inevitável "e essa chuva, né?!". Renato abriu a porta pra mim pensativo, cabisbaixo, mas logo começou a falar das férias no litoral norte do estado. Ele gosta de acordar cedo e nadar no mar. Numa dessas vezes, passou um sufoco quando uma tempestade começou de repente. Há muita incidência de raios na região. Me preparei para ouvir uma história de aventura, mas acabei descobrindo uma de (des)amor.

"Um dia ela disse 'eu não tenho mais amor pela sua pessoa'. Assim, depois de 28 anos de casados. Perguntei: 'Selma, você tem outra pessoa? Conheceu alguém?'. Ela disse que não. Me agradeceu por ser bom pai e bom marido e disse que queria viver a vida. Foi morar numa república. Numa república, você acredita?! Perguntei à nossa filha – eu e minha filha somos muito amigos – se ela sabia de alguma coisa. Ela disse que a mãe não está namorando ninguém, está sozinha mesmo. A Selma é diarista. É uma mulher linda!.. Fui lá onde ela está morando. Nos abraçamos e chorei. Ela chorou também, mas não quer voltar."

"Eu não tenho mais amor pela sua pessoa"

Essa foi a frase-gatilho que me transportou para a conversa entre Renato*, o taxista que desabafava comigo, e Selma*, sua ex-esposa. Por algum motivo, imaginei que o diálogo tivesse acontecido na cozinha da casa deles, mas seria invasivo perguntar. Mais que uma curiosidade boba sobre um detalhe que não faria a menor diferença, presumir o cenário era um subterfúgio. Imaginar uma cozinha modesta com azulejos beges, uma mesa redonda e um liquidificador com capa de crochê era reconfortante e afrouxava o nó que tinha parado na minha garganta.

Quantas vezes fui ingênua como Renato e acreditei que o fim de uma relação só poderia ser provocado por uma terceira pessoa? E em quantas outras fui Selma e tive coragem de abdicar da estabilidade de um relacionamento morno? Várias e várias. E é bem provável que você também.

Dói muito mais acatar um término que ser a pessoa que colocou o ponto final na história, é fato. Mas a vida é imprevisível como o céu de São Paulo, em que o sol chega de repente pra nos pegar de galochas.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das fontes.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!

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