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Ela contesta machismo no samba: "Pra que eu vou cantar Amélia?"

Universa

29/07/2020 04h00

"Pra que eu vou cantar Amélia?", contesta Anná, sobre clássicos machistas do samba (Foto: Merylin Esposi/Instagram)

Nascida em Mococa, no interior de São Paulo, Anná se mudou para a capital há cinco anos, para estudar cinema. De família evangélica, ela, que era impedida de ouvir músicas que não fossem louvores, cantava na igreja e quase se tornou pastora. Quase. "Me libertei na adolescência. Só podia música gospel, aí não aguentei. Como é que fica sem ouvir Gil nessa vida?", brinca, em tom de desabafo.

Machismo no samba

"Quando cheguei a São Paulo, já sentia que rolava um estranhamento quando alguém cantava uma música com uma letra machista. Por exemplo, 'Se essa mulher fosse minha, tirava do samba já, já. Dava uma surra nela, que ela gritava: Chega!'. Eu nunca vi essa música ser cantada em roda de samba. Uma vez eu não tava presente, mas sei que alguém cantou e foi muito tirado. A galera falou: 'Tá louco, mano, de estar cantando isso aí? Pra que você tá cantando isso aí?!'", relata.

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Anná estreou na cena paulistana em 2015, numa época em que as rodas de samba eram majoritariamente compostas por homens. "Não existia samba de mina, roda de samba de mulher. Existia um ou dois projetos, só. Se você é mulher e chega num ambiente que só tem homem, sempre é delicado, no mínimo. E existe essa coisa, não só no samba, na música, do lugar da mulher como cantora. A gente não tá junto com os músicos, a gente tá num outro lugar. Ou num pedestal, ou numa fossa."

"Os caras acham que ficar falando como eu sou linda entra num… sabe? Essa coisa muito sutil do elogio que não é um elogio, que é uma cantada, um assédio" (Foto: Filipa Aurélio/Instagram)

"Pra que cantar Amélia?"

"Pra que eu vou cantar Emília? Pra que eu vou cantar Amélia?", contesta Anná.  'Emília', composta em 1940 por Wilson Batista e Haroldo Lobo, começa com 'Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar, e que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar'. Já 'Amélia', outro clássico também da década de 1940, exalta a mulher que 'não tinha a menor vaidade', e que por isso seria 'mulher de verdade'.

"São valores que estão sendo derretidos, não fazem mais sentido. E se o cara canta hoje, é reprimido de alguma maneira. Tem muitas mulheres compondo sambas e, ao mesmo tempo, também tem alguns caras que tentam falar sobre. Tem casos de sucesso, como o do Douglas Germano, que fez a música que a Elza Soares gravou: 'Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180'. É o cara falando sobre uma coisa nossa, mas, e aí, ele não pode falar? Ou pode? Mas de que lugar ele fala? Acho que são discussões muito pertinentes", afirma.

"Já vivi situações de estar lá cantando, entregando a minha alma, aí abri o olho e vi um músico falando pro outro: 'Nossa! Olha essa gostosa que passou!', saca?! E aí cê fica como?" (Foto: Merylin Esposi/Instagram)

O debate – extremamente necessário – entretanto, nem sempre gera resultados satisfatórios. "Tem uns caras que tentam falar, mas sai pela culatra. Tem um tiozinho que fez uma música que era assim: 'Tira a mão da teta da menina, a teta dela não é uma buzina'. Não, amigo, não é por aí. Não é isso que a gente tá falando", conta, rindo.

"Acho muito delicado esse lance do patrulhamento, mas o movimento que tá rolando é dos caras, amigos, virem perguntar: 'Você acha que essa letra é machista? Acha que tudo bem eu cantar essa letra?'. É isso! Vamos discutir sobre isso ao invés de 'não vamos cantar'. Não é censura, mas o que você tá cantando? O que você tá exaltando e como você tá colocando isso?", pondera Anná.

"Nunca que vou falar de samba posso esquecer ou omitir esse lugar, de que foi uma mulher negra que fez esse movimento chamado samba tomar corpo, foram as mulheres negras que enfrentaram esse patriarcado, que foram pro front" (Foto: Filipa Aurélio/Instagram)

Protagonismo feminino e negro

"Quando a gente fala de samba, tem que falar do protagonismo da mulher negra. Quem criou o samba como a gente conhece, foi Tia Ciata. Uma mulher que abria a casa dela no Rio de Janeiro e, na frente, na sala, tinha chorinho; no fundo, tinha a macumba. O batuque comia solto no fundo do quintal e aí surgiu o samba, com essa mistura. Foram as mulheres negras que enfrentaram esse patriarcado. Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra que protagonizaram essa luta, que foram pro front, para que a gente pudesse estar aqui hoje", lembra Anná, que em agosto lança um disco autoral com 11 composições. "Não é um samba. Começa um samba, depois vira um bagulho muito louco. É um álbum de colagem musical", adianta.

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!