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Sex workers, elas são pagas para humilhar virtualmente os homens

Universa

22/07/2020 04h00

A sex worker Deliratrix, do Rio de Janeiro: R$ 100 por um vídeo de cinco minutos (Foto: Arquivo Pessoal)

Por curiosidade, aos 17 anos, Deliratrix começou seus estudos sobre BDSM (sigla para Bondage, Dominação, Submissão e Masoquismo). Hoje, aos 20, a sex worker trabalha das 9 da manhã às 10 da noite atendendo demandas fetichistas – que aumentaram na pandemia.

R$ 20: "Avalio o tamanho do seu pau e dou opinião sobre ele"

Para receber um vídeo de cinco minutos dela se masturbando são R$ 100. Para ter um feedback de desempenho sexual, R$ 20. "Avalio o tamanho do seu pau e dou opinião sobre ele. Pode me enviar imagens, caso se sinta confortável. A conversa é em texto e dura 15 minutos. Nem mais, nem menos. Caso queira mais, pague por mais", anuncia ela, em sua loja online de produtos e serviços.

Aumento da demanda na pandemia

Além de vídeos, fotos e avaliações, Deliratrix também vende meias, calcinhas e até camisinhas usadas. "Houve um aumento no consumo dos clientes fixos, os que têm grana pra gastar. Creio que seja pelo tempo livre ou necessidade de se autossatisfazerem, por não terem outra distração. Geralmente são homens entre 30 e 50 anos, que já se conhecem bem o suficiente e chegam com o pedido na ponta da língua. A maioria é casado, e eles falam sem eu nem perguntar. Normalmente as esposas não sabem dos fetiches, ou sabem e sentem nojo ou medo realizar."

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"A parte mais difícil é acharem que sex worker dá vazão a qualquer tipo de comportamento inapropriado. Nós não queremos receber um pênis aleatório na caixa de mensagens, mas eles juram que é superprazeroso", revela.

"Não é um dinheiro fácil como muitos acham"

Domme Satan, 23, começou trabalhando como camgirl, conheceu outras BDSMers e se identificou com esse estilo de vida. "Na época conversei com uma pessoa sobre, e ela me deu dicas e disse que o mais importante era estudar e me dedicar sempre, porque não era um dinheiro fácil, como muitos acham. Me encantei com o meio, como funcionava e descobri fetiches", conta ela, que é dominadora há um ano.

Domme Satan: "Desde que comecei minha vida sexual o BDSM tinha uns traços presentes" (Foto: Arquivo Pessoal)

"Eu trabalho quase 24 horas por dia, sete dias por semana. Com a quarentena, tenho trabalhado mais por Skype, Twitter e Whatsapp, com sessões por mensagem ou videochamada. Por mensagem, controlo o submisso ou apenas dou ordens. Produzo vídeos e áudios também, em torno de fetiches de dominação. E o que mais faço é scat e humilhação verbal e física." Scat é o fetiche por fezes.

"A melhor parte é a relação de amizade e comprometimento que você cria com o outro, o poder de se sentir adorada por alguém e, principalmente, a independência financeira. A pior é o olhar preconceituoso a esse trabalho", conta Satan.

"Me livrei de uma relação abusiva com o empoderamento que o BDSM me trouxe"

Estudante do terceiro ano de pedagogia, Missandei, 29, é dominadora há quatro anos, mas só contou para os amigos há pouco tempo. "Eles adoraram! Minha família não sabe. Primeiro eu achei que era submissa, acho que devido ao fato de ser mulher, preta e gorda, não sei. Sempre achei que o meu lugar no meio seria como submissa. Até começar a desenvolver as leituras com a Aurora (uma mentora) e me livrar de uma relação abusiva com a ajuda do empoderamento que o BDSM me trouxe."

"Conheci meu namorado comprando foto da pepeca", diverte-se Missandei (Foto: Arquivo Pessoal)

O atual namorado de Missandei foi um cliente. "A gente se conheceu com ele comprando foto da pepeca (risos)! Somos mega felizes, ele me apoia horrores, em todos os sentidos. Não me sinto insegura, e nem ele. Ele curte exibicionismo, então estamos bem. Muito bem."

Além dos submissos fixos, que são três, "um solteiro, um casado e um que namora", Missandei atende de 15 a 20 clientes por mês. "Isso inclui produção de conteúdo, que são os packs (pacotes de fotografias) que são variados. Sensuais, explícitos… Escrevo contos eróticos, produzo ASMR (gatilhos sensoriais), muita coisa", conta ela, por Whatsapp, enquanto se arruma para despachar uma encomenda de calcinhas e meias usadas.

"Eles se realizam com as migalhas"

"Muitos me presenteiam falando 'Você vai usar com o seu namorado e eu amo isso'. Eles se realizam com as migalhas. É fetiche deles. Mas as migalhas são personalizadas. É a foto exclusiva pra ele, é o vídeo gemendo o nome dele", explica Missandei, sobre as motivações dos clientes.

"A demanda online aumentou porque as sessões presenciais não estão rolando. Apesar da crise, o consumo aumentou. Não só o fetichista, mas o de pornografia personalizada também. Sabe o sentimento de posse, de que é seu, foi feito pra você? É o desejo se realizando. Uma pessoa que você nunca vai ter, à sua disposição. Uma pessoa que você nunca vai poder tocar tá produzindo conteúdo pra você. É seu. Ninguém tira."

Sobre a autora

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Sobre o blog

Um espaço para falar de amor, sexo, comportamento feminino e feminismo com leveza e humor. Tudo sob o olhar de uma mulher esperta, que gosta de mulheres tão espertas quanto ela!